Bem vindo a Forgotten Realms!
Terra de maravilhas e perigos esperando por aventureiros corajosos dispostos a desbravar o desconhecido para descobrir tesouros e mistérios do passado.
Um mundo em constante mudança, palco de belas e grandiosas histórias, sempre carente de heróis prontos para vivê-las.

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Aroma de Saudade
A vista do mar, e o sol começando a avermelhar no céu prateado de Abeir, deixou Marjetus a pensar sobre seus últimos dias de viajem, mesmo que a trilha fosse íngreme, fria e com perigos à espreita, Marjetus não se sentia tão feliz dês de quando Grecor abriu seus olhos pela primeira vez. Nestes dias de viajem teve a oportunidade de falar pela primeira vez com Grecor dês de que havia sido apunhalado, e ouvir a alegria e esperança de Grecor pelo simples fato de Marjetus estar vivo era algo que fazia este caçador de recompensas lacrimejar de saudade de seu filhote. Entre as mensagens que mandou para Catarel pedindo ajuda para resgatar e trazer Grecor em segurança para o lugar que era seu por direito, o ombro de Marjetus, ou as mensagens que mandou para seu grande amigo monge Kenju contando as novidades que passara, ou até mesmo as novas informações que mandara para o estudioso Illinoa, que o ensinara tudo o que sabia sobre bruxos em troca de Marjetus o ajudar em suas pesquisas, que ao ouvir sobre primordiais, Abeir e outros acontecimentos mágicos, quase não conseguia falar de tão ansioso que havia ficado para continuar sua pesquisa, Marjetus até assustou-se com seus gritos, achou que os outros poderiam até ter ouvido de tão altos que eram os gritos do mago. Sem se esquecer das brilhantes habilidades de seus companheiros, tanto com Yavana, Glogui, Narzuga e até mesmo Grieldo no combate contra o dragão branco que enfrentaram juntos, ou tanto com Despin conseguir realizar sua missão de resgate sozinho a Yilgrus que estava em perigo, Marjetus se sentia com esperança no grupo, sabia naquele momento que mesmo que houvessem conflitos entre o grupo, eram fortes, podiam contra tudo, só precisavam da estratégia certa, mas isso Marjetus já sabia que essa seria sua maior contribuição para o grupo. Nem mesmo as notícias ruins podiam abalar sua alegria e esperança, saber que Grecor ainda está preso em uma gaiola longe de seu alcance, saber que talvez Selune e Catarel não possam ajudar diretamente em seu salvamento, ouvir que Kenju não teve sucesso em encontrar o paradeiro de Grecor e que a mulher que Marjetus pediu para “manter um olho nela” estava em problemas pelo que os monges contavam, ou ouvir da concorrência por Yilgrus e com a Luna ainda se escondendo em Sigil, nada disso naquele momento podia abalar sua alegria, pois ainda podiam ser resolvidos.
Enquanto admirava aquela vista, Marjetus não pode deixar de perceber Despin tocando seu bandolim sentado em uma pedra, experimentando notas, Marjetus rapidamente fez uma fogueira próximo ao bardo, e logo quis ouvir seus feitos atravessando o abismo, Despin sorriu ao ver o seu interesse, começou a tocar uma música enquanto contava dos terríveis demônios que passou, com a música e a fogueira, os outros começaram a se juntar, Despin contava seus feitos quase como se tivesse derrotado o abismo inteiro apenas com sua espada, bandolim e sua vasta inteligência, mesmo que ainda tenha hesitado um pouco ao falar de como chegou em Sigil de fato, com risos, com tensão, e muita bravura, Despin terminara sua história falando de como enganara um dragão branco e todos os seus kobolds. Com o fim da história do bardo, Marjetus olhou envolta, vendo os rostos de seus companheiros sendo iluminados pelas chamas da fogueira, alguns maravilhados com a história, outros preocupados com o que vira, e em especial Narzuga, que mesmo com seu rosto enigmático de draconato parecia desapontado por algo, algo que para Marjetus era cara de quem está “com problemas com mulheres”, Marjetus já sabia o que fazer para animar ainda mais os ânimos, se levantou, tirou a carne de dragão que havia sobrado da viajem, invocou uma lança, atravessou a carne e colocou-a para assar contra o fogo, tirou seu jarro de alquimista, falou “cerveja” e entregou para Despin para dividir com o grupo, e se preparou para contar a história que enfrentaram nestes dias, Grieldo quis contar mas Marjetus o persuadiu que seria melhor se contasse, não iria contar sobre a longa viajem, e sim sobre os heróis, que com pouca dificuldade se livraram do dragão branco que a tanto ameaçava suas viagens, contou sobre a forca de Glogui que esmagou a cabeça do dragão com sua marreta, sobre a coragem de Yavana que sem muita dificuldade montou na fera, sobre o poder de Narzuga que com seus raios derrubou a fera dos céus, e sobre o bravo Grieldo, que aguentou a congelante mordida do dragão e ainda debochou da cara da fera com seu ataque certeiro, com essa última parte estragada com a risada de Glogui que se espalhou para o resto do grupo, Marjetus pediu desculpas ao meio-elfo que se irritou com a risada. Mas depois de sua história, os outros começaram a se empolgar, Glogui contando de suas histórias com Cornelius, Despin contando tanto histórias que ouvira em seus anos de bardo e histórias que ele enfrentou antes de vir com o grupo, Grieldo contando fantásticas historias, algumas até mesmo difíceis de se acreditar a princípio, Marjetus contando histórias de trabalhos que fez, dês de inteligentes estratégias, até os desastres mais cômicos que passou. A cerveja estava ótima, pois aqueles que a bebiam estavam alegres, cantando e dançando, aquela carne parecia ser um requintado banquete para aqueles que passaram seus últimos 15 dias apenas comendo rações, tudo estava bom, mas Glogui ainda estava um pouco preocupado com Cornelius, pois esteve sozinho nos últimos 15 dias, perguntou a Marjetus se não havia forma de falar com ele, o caçador de recompensas sem hesitar acenou que sim com a cabeça, se afastou um pouco do grupo, olhando o vermelho pôr do sol que se misturava agora com o mar, começou a preparar o feitiço se concentrando em um velho gnomo, mas a música que Despin estava tocando, lembrava muito uma que a um bom tempo não ouvia, a imagem do gnomo havia sumido, em sua mente agora só passava uma canção, e com essa canção, se lembrou de uma taverna, onde cantou aquela canção... junto a um anjo... seu rosto era a única coisa que tinha em mente naquele momento, e quando se deu conta, estava cantando, Marjetus então parou, e percebeu ter feito o feitiço, mas logo depois, aquela voz veio a ecoar em sua mente, Marjetus soltou um alegre suspiro, pois sabia que tudo estava bem, mesmo não trazendo as notícias que Glogui esperava, sabia que só poderia se concentrar nisso depois que a noite caísse e a música parasse.
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V de Viagra
Quanto tempo fazia desde sua última visita ao forte? Rimlost. Parecia um tipo de sonho do qual se desperta sem saber ao certo se era fantasia ou realidade. Daquelas palavras que o vento carrega dos boatos que correm por aí sobre algo ou alguém, não se sabe bem, que talvez possa existir. E, contudo, era-lhe tão familiar.

A torre negra sobre a escarpa ao pé das montanhas desembocando diretamente no mar, como se a própria natureza anunciasse o conflito dos elementos. No portão, Nazurga encontrou Pyro, e o cumprimentou sem muita festa. Procurava um rosto entre a multidão, mas não encontrava. Também não se animava muito na busca. A ideia do primordial que decidiu atravessar o inferno sozinho para se reencontrar com seu amigo o tocava. E ainda o preocupava. Logo aquele que era o mais gentil do grupo, vagando nos Abismos.

“Despin!” O meio-gigante bradou, interrompendo as divagações de Nazurga. “Yilgrus!” O draconato olhou para o lado e observou enquanto os dois companheiros se aproximavam do forte. Teria algo dado errado nos quinze dias separados? O tal Yilgrus, como o chamaram, parecia gravemente ferido, com o corpo coberto por queimaduras. Mas o pequeno halfling estava são e salvo, e isso o reconfortava.

A reunião com o Grão-Mestre foi severa. Claro, havia fôlego na fala graças à chegada dos primordiais. Mas as notas amarelas ainda habitavam o discurso do velho. Saídos dos aposentos do Mestre, Nazurga sabia que deveria se preparar para velejar rumo à antiga Biblioteca das Eras, da qual apenas ouvira falar. Mas não podia partir sem encontrar aquele rosto que abandonara no forte antes de sair em sua última missão.

Um ano se passara. Teria ela morrido em alguma das missões da ordem? Nazurga não queria acreditar nisso, apenas corria o rosto pela multidão à procura dela. De repente, um movimento furtivo captou sua atenção no campo de visão periférica. Uma figura o espreitava. A criatura investiu contra ele pelas costas, mas ele se virou a tempo de segurar Neelisa, que saltou para abraçar seu pescoço e enroscou as pernas em sua cintura. Eles se beijaram demoradamente.

O quarto estava como o deixara. O “equipamento” especial ainda estava lá. O mundo estava por um triz, mas os hormônios de um draconato adolescente são incomparáveis. Eles aproveitaram por algumas horas a presença um do outro. Definitivamente não foi medíocre, nem tinha como ser entre eles, foi acima da média… só não foi espetacular como costumava a ser. Talvez a timidez de estudioso enclausurado de Nazurga, aliada ao fato de que não se encontravam havia muito tempo, tenham influenciado.

Ele não chegou a perguntar para Neelisa o que ela achou. Também, nem precisava. Ela estava sorrindo, com certeza foi prazeroso, mas os olhos dela não escondiam a dúvida. Nazurga poderia dizer que o problema era ele, não ela. Poderia discorrer sobre como a viagem fora exaustiva, sobre como o frio das montanhas era congelante, sobre a sensação de impotência ao enfrentar um dragão. Mas ele estaria mentindo.

A verdade é que, para Nazurga, o problema era ela. E não havia nada que a elfa pudesse fazer a respeito. O problema era seu sorriso angelical, seus olhos celestiais, seu… seu tudo, que era demais. Ela parecia grande demais para o gosto de Nazurga. O problema era sua altura, era seu jeito, era seu sexo… Era o quê? Nazurga virou para o outro lado do colchão. Não tinha coragem nem estômago para encará-la naquele momento.
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A volta dos que não foram
[TRILHA SONORA]

“Zurga, me perdoe…” Narujin pensou enquanto empurrava o irmão para dentro do fosso escuro no centro da sala. Não tem por que morrermos juntos. Você vai, eu fico. Um morre para que o outro possa viver. Parecia uma troca justa. Observou o irmão caindo enquanto a guarda da Imperatriz irrompia pela porta. Resistir? Inútil. Narujin evitou encará-los diretamente. Apenas cerrou os olhos e virou o rosto, com medo. Desejava que o irmão estivesse bem, onde quer que aquele fosso levasse.

Os soldados não foram gentis. Arrastado pelos cotovelos, os joelhos raspando no chão, Narujin foi carregado para o grande salão onde a Imperatriz se encontrava. Vários ferimentos em seu corpo vertiam sangue escuro, mas um era especialmente horrível. Seu olho esquerdo fora esmagado e a pele do supercílio e da bochecha rasgaram com esse mesmo golpe do cabo da espada do capitão.

“Minha Senhora, Imperatriz Gauwervyndhal, soberana de toda Abeir, mantenedora da ordem e arauto da paz, aquela que…” A Imperatriz interrompeu o capitão, impaciente. “Basta! Esses elogios não protegerão a guarda de minha fúria! Como pode, dois pirralhos passarem despercebidos pela segurança do palácio?! Vocês são cegos ou surdos? Talvez um pouco de cada? Se não eram, com certeza ficarão, como punição!” Gauwer esmurrou um espelho, trincando-o com inúmeros vincos.

Ela olhou para o prisioneiro e seu rosto tornou-se roxo de raiva. “Ainda por cima só conseguiram capturar um?! Com qual incompetência se apresentam!” O capitão se encolheu, legitimamente apavorado, e gaguejou: “Minha Senhora, ga-garanto que os homens o encontrarão! Ele de-deve estar escondido em algum outro cômodo do palácio! Mas esse aqui não abre o bico…”

A Imperatriz cessou sua ira e se dirigiu ao draconato. “Eu entendo que o pirralho que escapou era seu irmão… por que não foi junto com ele?” Narujin respondeu grave. “E por que eu faria isso? Lançar-me ao mundo novamente, então a mesma velha guerra por sobrevivência, a mesma incerteza… é preferível a própria morte.” A imperatriz mediu o rapaz com um olhar curioso. “Ora, então por que não tomou a própria vida ainda?” Narujin permaneceu em silêncio, ele tinha uma noção da resposta, mas não queria admiti-la. “Responda a Imperatriz, seu insolente!” O capitão deu um tapa no prisioneiro.

Uma lâmina emergiu da garganta do capitão. Os olhos se reviraram para cima. A Imperatriz atravessara seu pescoço. “Estou farta de sua total falta de responsabilidade, capitão, está dispensado.” Gauwer chutou o corpo do homem para fora do gume. “Onde estávamos? Ah, sim! Você sabe, draconato. Sabe muito bem por que continua aqui… por que não fugiu com o outro. Você sabe que, às vezes, o bem maior requer sacrifícios. Você sabe que o bem é impossível sem que haja ordem… e a ordem se faz pela força.” Ela limpou a lâmina com a qual executara o guarda. “Este capitão não era dos melhores, mas precisaremos de um substituto. Quem sabe, com tempo e dedicação, você não se prove exatamente o que eu estou procurando?” Narujin apenas encarou seu reflexo no espelho partido.

***

[TRILHA SONORA]

“Capitão? Capitão!” Um soldado chamava Narujin, enquanto ele estava perdido em suas lembranças, olhando para seu reflexo em uma janela quebrada. “Capitão, acabamos com cada último homem, mulher e criança que não jurou sua aliança ao bem maior de nossa Imperatriz. O que fazemos com as casas?” Narujin ponderou por um momento. “Queimem… queimem tudo homens! Precisamos enviar uma mensagem clara aos infratores e vilões desta terra!” Então olhou para um ponto perdido no céu com pesar e pensou: “Espero que esteja preparado, Zurga, porque eu estou chegando…”
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O Velho dos Livros #1: O Banquete dos Pucke
Era uma manhã tardia já na vila de Ebbslinger - e assim como o nome sugeria, tudo se mantinha exatamente da mesma forma como ontem, anteontem, amanhã e para sempre. Pequenos Hins corriam pela pequena praça, anéis de fumaça se esvaiam pelos ares, e o cheiro de javali fresco se espalhava pelas casas. Havia um banquete sendo preparado: na casa de Tirminton Pucke, o nobre senhor opulento de Ebbslinger.

Todos os Hins da vila estavam no lar dos Pucke - afinal, era uma toca bem grande - e uma enorme mesa ovalada cercava-se de mais e mais convidados, as crianças e os velhos e os adultos normais. O lorde dos Pucke, por sua vez, encontrava-se na beira mais distante da porta da mesa do banquete, rindo de caneca na mão, sua terceira de hidromel, enquanto falava de suas caças de javali selvagem que fizera na manhã passada. O banquete, obviamente, era javali; o que ele mesmo tinha caçado e se esbaldava de contar em todos os detalhes. Ao redor de todos os convidados e Pucke, havia a sala de jantar da casa, o primeiro cômodo virando à esquerda da porta. Além da sala de janta, haviam três quartos, uma sala de troféus de javali, uma sala de estar e por fim, uma saída pelos fundos - uma saída dos fundos, em uma toca de Hin. Tirminton Pucke morava com sua esposa, Anibelle Pucke, e ambos pareciam feitos um para o outro, rindo alto, falando futilidades, e de olho para que ninguém quebrasse nada da sala de jantar.

O banquete corria perfeitamente bem em sua ordinariedade, até o inordinário acontecer. Como um feitiço, o bater nas portas da toca silenciaram toda a casa. Passando-se alguns segundos de completo vazio sonoro, murmúrios passavam de uma boca a outra, sussurando a mesma incredulidade. Não poderia ser ele, o único que não foi convidado, simplesmente não poderia ser! E continuaram falando até que foram outra vez interrompidos pelas batidas. O que eram murmúrios tornaram-se olhares, vertendo-se lentamente da porta para o rosto carnudo de Tirminton Pucke. O dele, em resposta, olhava para todos na mesa e, em um ato de desespero, riu a mais amigável risada que podia. Mas é claro que era ele! dizia, enquanto levantava-se da cadeira e encaminhava-se à porta. Antes de abrir, dirigiu-se reflexivo e franzudo - é claro que era ele.

Tirminton girou a maçaneta e o semblante em seu rosto agudava-se cada vez mais com a abertura da porta. De fato, estava certo: era um Hin de feições magras, costeletas e barba bem feitas cobrindo todo o contorno do rosto, apontando-se no queixo e respeitando a distância de um nariz proeminente. Seus cabelos, assim como o resto, eram grisalhos, e curtos mais nos lados que no topo, onde se espetavam cuidadosamente. As roupas eram simples - um colete de couro cor-de-carvão, combinando com a calça monocromática e cobrindo a camisa esbranquiçada. Não usava sapatos, os pés sujos de algo pareciam marcas de terra e cascalho absurdamente distantes da grama de Ebbslinger. Toda a roupa contrastava com as sedas de Tirminton Pucke em seu colete, acompanhadas de um kilt e meias brancas, e sapatos pretos bem polidos. De tudo presente nos dois Hins, porém, a maior antítese jazia na sinceridade do rosto fechado do velho. Um pequeno instante depois da abertura da porta, Pucke deu as boas vindas mais honestas que pôde ao desconvidado.

"Arbitair Pip!", saudou em vozes altas, "entre!". Ignorou os espantos confirmados de todos os convidados. E de fato, entrou Arbitair, olhando ao redor da residência.
"Pucke. Não sabia que havia um banquete em sua casa hoje. Acho que o cheiro do javali não chegou em mim", disse Arbitair, mantendo o rosto fechado. Pucke riu, olhando do recém-chegado ao convidados incrédulos.
"Ora, meu caro, mas o cheiro podia ser sentido de toda a vila! Acho que tem algo errado com suas narinas", afirmou Pucke.
"Oh, aquele que você caçou por um dia inteiro e tomou crédito. Teve ajuda do macho que disputava sua parceira?", perguntou Arbitair, e apenas a pergunta foi o suficiente para despertar ares de dúvida aos que serviam-se da besta na mesa de janta. Arbitair também se aproximava aos poucos ao banquete, olhando os quadros, os enfeites e os pratos guardados. Poucos notaram o instante que Tirminton arregalou os olhos ao ouvir a fala de Pip, pois se recompôs no momento seguinte.
"Mas poxa, de forma alguma! Foi uma caça limpa, e cada flecha certeira! Mas nós caçadores não podemos ter pressa, não é mesmo, por isso a demora", manejou Pucke com as palavras. Arbitair não ouvia mais o nobre, a poucos passos da mesa.
"Claro, claro"
Finalmente, o velho sentou-se em uma cadeira vazia - seu dono estava em pé observando em desgosto e desespero a chegada do Hin, mas estava catatônico demais para fazer algo a respeito. Arbitair pegou uma caneca já vazia, a encheu de hidromel e tomou três goles inteiros sem interrupção, descansando-a na mesa após um tempo. Pucke, por sua vez, pegou uma cadeira da sala de estar correndo, acomodou a mesma em um espaço apertado e sinalizou para que todos sentassem, incluindo o que estava na cadeira pertencente agora a Arbitair. Sentou-se e disfarçou o semblante cansado de sorrir tanto com um gole de hidromel.
"Então... o que faz aqui, digo, o que faz em Ebbslinger de novo?", disse Pucke entre tosses por beber muito rápido.
"Bem, eu sempre volto, não é como se alguém pudesse impedir, não é mesmo?", disse Arbitair. "Meus livros precisam ser escritos em um lugar seguro, não quero perdê-los".
"Ah, claro...", respondeu Pucke. Subitamente, notou que naquele momento havia uma chance de tomar controle da situação outra vez. Debruçou-se confiante sobre a mesa e perguntou ao rival:
"E bem...sobre o que você escreveu dessa vez, Arbitair?". Satisfez-se quando ouviu mais que uma vez um riso contido de descrença dos outros convidados ao velho. Este, porém, manteve-se quieto, girando o conteúdo restante de sua caneca.
"Dessa vez não foi muita coisa, não cheguei tão longe quanto queria. Ouvi uns cavaleiros falando sobre como algumas montanhas podem ter algum deles, mas não sei se é verdade. Vou checar pessoalmente daqui a uns dias."
O ar incrédulo retornou à sala de jantar, dessa vez direcionada ao velho. Havia uma dualidade entre julgar como mentira e loucura tal história, e crer em seus contos, e o quão insanos eles mesmos seriam se de fato fossem reais. Tomando partido da realidade, mas ainda descrente, Pucke olhou de profundo a Arbitair.
"Espere... você está dizendo que vai sozinho checar o covil de um...", perguntava Pucke, quando a resposta chegou mais cedo que o planejado.
"Sim, de um dragão".

Os rostos de toda Ebbslinger reunida transfiguraram-se em espanto. Preferiam acreditar que não fosse real a loucura de Arbitair Pip, mas o medo de tais fatos permeava suas mentes. Pip era diferente, andava para fora da vila e voltava com histórias das mais absurdas, e com nada de prova além de papéis e mais papéis de esboços de seus estranhos livros. O velho não voltava há anos, e nos próximos sete dias, declarariam sua casa como "Patrimônio de Todos" da vila de Ebbslinger, para que pudessem pegar seus pertences, e fazer o que quiserem com eles.
Para o espanto maior de todos, um grito estridente correu pelos ouvidos de todos os presentes, tomando-os de surpresa e encolhendo-se ao barulho.
"O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?!", dizia o grito. Era Anibelle Pucke, saída da cozinha com um bolo de frutas variadas fumegante.
"Tirminton, pela mãe Yondala, por que esse VELHO MALUCO está em NOSSA CASA?!", gritou Anibelle. Seus dizeres faziam parecer que os sessenta e cinco anos de Arbitair parecessem o dobro.
"Anibelle, querida, ele apareceu aqui e, bem, como você sabe, nós, os Pucke, precisamos ser hospitaleiros com todos, não é mesmo? Somos conhecidos justamente por isso!" disse Pucke, rápida e desesperadamente, acovardando-se perante à esposa.
"Sim! Nós somos conhecidos por hospitalidade! Mas ao mesmo tempo, não podemos deixar qualquer um entrar em nossa casa! Você acha que esses pisos vão se manter limpos com os pés desse heremita?! E a caneca?!" disse Anibelle, dando ênfase com os olhos à caneca de Arbitair como se fosse um filho às mãos de um troll.
"Eu, eu acho que, eu--"
"Tire ele daqui de casa AGORA MESMO!", vociferou a mulher.
Não foram necessárias mais palavras, porém, pois o próprio Arbitair Pip levantou-se da cadeira calmamente.
"Anibelle, não se preocupe com minha presença mais, queria apenas passar um tempo com meus velhos companheiros de Ebbslinger", disse. "Não há necessidade de mais alvoroço, já estou de saída"
Pegou um garfo na mesa e observou-o contra a janela talhada elegantemente. Era uma pena que um metal tão bom fosse usado para a comida de esnobes, pensou. Engarfou um pedaço do javali que restava, levantando-o à altura da boca.
"Tirminton, meu 'caro'. Não se preocupe, não entrarei mais na sua casa e causarei qualquer mal entendido. Mas enquanto não estiver pronto para ir até as montanhas, estarei vagando na floresta, vendo o que encontro de interessante", disse antes de abocanhar o resto do javali e deixar o garfo na mesa. Dirigiu-se à entrada da toca, e virou-se uma última vez, olhando para Tirminton Pucke.
"Ah, e da próxima vez, procure mirar na cabeça. Mirar na traseira do javali vai fazer ele sangrar por muito tempo, é sujo e desnecessário para o animal. Sinceramente, se não fosse pelo outro bicho, você realmente teria ou deixado a coisa fugir, ou teria encontrado sua carcaça devorada por qualquer outra coisa que pudesse vir de mais longe. E acho que esse você não teria muita ajuda para contar com", finalizou Arbitair, fechando a porta atrás de si.

O banquete durou por mais pouco tempo, em completo silêncio exceto o tilintar de poucas canecas e as facas colhidas para cortar o bolo de frutas. Tirminton Pucke não comeu do bolo, ao invés disso ficou observando a mesa de jantar por um incontável tempo, antes de despedir todos os convidados enquanto falhava miseravelmente em conter o seu desprazer do encontro com o desconvidado. E assim cresceu em um passo gigantesco o desgosto dos Pucke por Arbitair Pip, ao mesmo tempo que a reputação da nobre família dos Pucke caiu mais do que caíra em anos e anos e anos de contos mentirosos, pequenos favores, e os bons costumes dos Hins realizados à exaustão. Um dia ele conseguiria tombar aquela casa cheia de livros de Arbitair Pip, mas não antes de trazer fazê-lo pagar pelo que fez. Mas antes mesmo disso, era bom comer o bolo de frutas de Anibelle Pucke: sabia o que aconteceria se não provasse de qualquer comida que a esposa fizesse - e não disesse que estava ótimo.
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Sad Lizardman
“PAPAI!” Nazurga gritou, enquanto os soldados da Imperatriz arrastavam ele e o irmão Narujin para fora de casa, em seu terceiro aniversário. O pai rugiu em fúria, incapacitou dois, três … um quarto soldado feria-lhe com uma lança. Uma pancada na cabeça, Nazurga não viu mais nada depois disso.

***

“Os guardas fazem troca de turnos hoje, na virada da noite, nós podemos usar os canais subterrâneos e… Jin, tá me ouvindo?” O irmão pensava sobre a vida de antes de servirem aos dragões, quase metade de seus parcos seis anos, passada em servidão. “Zurga, você se lembra de antes?” Antes? Aquela palavra soava como uma placa velha em uma estrada abandonada, apontando para uma cidadezinha qualquer que não estava mais lá.

Nazurga removeu o musgo e o limo da memória. “Antes… tinha o papai… e a mamãe… e os tios do clã… e a gente era feliz.” Narujin continuou olhando para o vazio. “Mas como era?” Nazurga já estava incomodado com as perguntas, o tópico era sensível para ele. “Eu não lembro, Jin! Como vou saber? Tínhamos a mesma idade! se você não lembra, por que eu lembraria?”

Narujin olhou para o irmão. “Zurga… havia fome…” Nazurga retrucou inconformado. “Havia liberdade!” Narujin se recolheu. “Eu sei, irmão. Eu só digo que… talvez… um pouco de ordem não faça tão mal… veja quantas bocas eles conseguem manter.” Nazurga apenas sussurrou para si: “Mas debaixo das escamas de ouro, uma carne podre…” Depois de uma longa pausa desconfortável, Narujin retomou sua preocupação. “Mas e se formos pegos? E se algo der errado?... E se um de nós tiver que ficar para trás?” Nazurga redarguiu confiante. “Então faremos isso juntos. Juntos no ovo, juntos na vida. Da casca ao pó! Mas não se preocupe, eu tenho um plano.” Narujin sorriu, sem muita convicção.

***


A noite se aproximava. Os irmãos rondavam os corredores do castelo da Imperatriz, uma espécie de mestre virtual, nunca a tinham visto em pessoa. Os guardas abandonaram os postos. Era a chance de acessarem as câmaras inferiores. Assim que abriram a primeira porta, um alarme soou, várias tropas invadiram o salão. Nazurga e Narujin foram forçados a retroceder no caminho. Corriam desesperadamente para as primeiras aberturas que encontravam, frequentemente também se deparavam com mais guardas. Então encontraram uma sala abandonada com um grande fosso no meio.

Os irmãos não sabiam onde aquele buraco poderia dar, se era um passe livre definitivo ou um beco sem saída. Enquanto isso, passos pesados e numerosos eram ouvidos, se aproximando, atrás deles. “Jin, vamos! Não temos tempo para pensar nisso!” Nazurga estava parado, na beirada do buraco, estendendo a mão para o irmão. Os soldados os alcançaram e arrombavam a entrada da sala. “Zurga, do jeito que você é ansioso pela liberdade, não me surpreenderia se dissessem que você chocou primeiro. Eu me pego pensando se devia mesmo ter chocado, preferia o interior quente e aconchegante do ovo… mas você não. Está na hora de você romper a casca, irmão.”

Tudo parecia se passar em câmera lenta. A mão do irmão em seu peito. Os soldados irrompendo na sala. Seu corpo se desequilibrando e pendendo para dentro da escuridão. As vozes dos soldados rendendo seu irmão. E mais nada.

***


Quando despertou, Nazurga estava deitado sobre uma substância lodosa. A cabeça doía. Quando a percepção se ajustou à fraca luz ambiente, estava frente a frente com um enorme dragão. O coração de Nazurga se encheu de pavor. Por um momento, o dragão não fez nenhum movimento. Um minuto… nada. Nazurga se aproximou e tateou. Era um enorme crânio de um dragão. Os ossos possuíam uma pigmentação avermelhada. Parecia ter morrido dormindo, em uma posição de repouso, e tinha um aspecto antigo. A perna de Nazurga doía por conta da queda. Procurou um osso de tamanho mais ou menos apropriado e o transformou em um cajado. Em verdade, sentiu um pouco de prazer arrancando um osso de um dragão, imaginou se o espírito da fera maldita sentia dor com aquilo.

Entre as patas da fera, encontrou duas gemas, um diamante e uma obsidiana, que ostentavam marcas estranhas gravadas neles. Provavelmente o animal morreu protegendo aquelas peças, talvez houvesse algum tesouro na sala e aquelas pedras foram tudo o que sobrou… não era possível que ele estivesse guardando apenas aquilo… era? De qualquer forma, as gemas seriam úteis. Ele se abaixou e tomou uma em cada mão. As marcas imediatamente se acenderam com seu toque. A obsidiana parecia incandescente em sua palma, o diamante exerceu um campo de magia que forçava seus dedos a se abrirem e se tornou surpreendentemente pesado. Após alguns segundos, acostumou-se à sensação, guardou as pedras em seus robes e se encaminhou para uma pequena fenda de onde fluía luz e uma brisa fresca. Prestes a emergir do buraco, olhou para trás instintivamente, uma lágrima se formou em seus olhos. “Jin…”

***


Após dias vagando, sem nada além dos restos de animais mortos na estrada e dos ratos que caçava, alcançou uma cidade com um fluxo forte de pessoas. Ela parecia cravada na pedra negra de uma montanha. “Black Hold”, disseram-lhe. Logo de chegada avistou uma placa com uma caneca de cerveja e uma cama, talvez o dono tivesse um pouco de compaixão por ele. Não teve. “A vida é dura, dura como o aço, meu amigo lagartixa.” Nazurga levantou as pedras, estava tão faminto e exausto que trocaria qualquer coisa por um prato decente e uma cama quente. Os olhos do anão acenderam vendo duas pedras tão grandes. Quando estava prestes a selar o acordo, um homem encapuzado levantou de uma mesa próxima e se colocou entre os dois. “Meu amigo anão, eu pago o consumo deste jovem, não se preocupe. Pode pedir o que quiser, garoto.”

Os pratos se empilhavam entre Nazurga e o homem. “Prazer, rapaz, meu nome é Pyros, Pyros Hammerlight. E o seu?” O draconato terminou seu quinto prato. “Nazurga.” O homem assentiu. “Você ainda é pequeno para um draconato, deve ser bem jovem. Onde está seu clã?” O rapaz suspirou. “Entendo…”, concluiu Pyros com um tom grave. “Você sabe o que são essas pedras que você carrega, garoto?” Nazurga negou com um balanço de cabeça. “Imaginei...Olha, garoto, se você estiver disposto a levantar o próprio peso, conheço um lugar onde você será aceito, lá tenho um amigo que se interessaria muito por essas pedras. Mas não será fácil, requerirá muito esforço, treino e estudo.” Nazurga olhou esperançoso para o homem, vislumbrando uma oportunidade de resgatar seu irmão. “Me aguarde, Jin, estou chegando”, Nazurga pensou.
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