"Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
Dizer qual era é coisa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa.
Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras coisas que vi, direi verdade..."

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A Roda da Guerra
"...Me deem um instante, preciso de um tempo a sós"

(Me clique)

Afastando-se de mais uma das discussões da Corrente, Aemus pôs-se de joelhos na grama, face voltada para baixo, olhos fechados. Mais uma vez, o fardo de sua missão pesava sobre seus ombros como um grande e imponente martelo.

Lembrava-se de sua cruzada, ainda era clara: como servo de Tempus, precisava fomentar o que aprendera em suas lições como a chamada "Roda da Guerra". O termo lhe trazia lembranças de quando ainda era jovem e inexperiente, ainda se desvinculando de suas impulsividades e descontroles. Sentava com um robe de cor marrom, coberta por uma simples couraça, emprestados a ele desde que foi encontrado com as roupas sujas e rasgadas. Já tinha se curado de seus ferimentos da batalha, mas ainda se sentia perdido em sua vida. Na verdade, sempre fora perdido em todos os seus dias até aquele ponto na história. Encontrava-se sentado num banco de madeira em uma pequena sala de pedra com vitrais avermelhados de desenhos de martelos, enquanto um clérigo lecionava sobre seu novo propósito.

"Jovem Aemus, essa é sua primeira lição. Na verdade, seria tolo dizer isso - você passou um bom tempo ouvindo nossas conversas enquanto mal podia falar, não é mesmo?"
Quem lhe falava era Thaywin, um robe vermelho de Tempus. Usava placas metálicas azuladas de criação élfica, tão élfica quanto a sua pele, totalmente negra. Os cabelos completamente brancos e longos pendiam numa trança cuidadosamente presa até o cóccix, e os olhos brilhavam na luz, as íris em cores intensas de rubi. Seu olhar era penetrante como a espada longa embainhada em sua cintura. Aemus aprendera depois que essa mesma lâmina, quando empunhada pelo drow, dançava tão rapidamente que se misturava aos cabelos de seu mestre, invisível e implacável.
No momento, o "jovem Aemus" olhava confuso para mais um dos membros daquela ordem que salvara sua vida. Ao mesmo tempo, sentia que não tinha mais para onde ir, e se fosse para ficar naquele lugar, pelo menos por um tempo, não faria mal em aprender mais do que já ouvira enquanto estava se recuperando. Acenou com a cabeça em silêncio, devido à falta de saber qualquer outra opção que tinha para resposta, e pela honra de luta fraturada que lhe impedia de proferir palavras.

"Imagino que tenha ouvido falar consideravelmente já sobre a Roda da Guerra, jovem" disse Thaywin. O jovem acenou. "Muito bem, então está na hora de finalmente entender o que ela é, e qual a sua importância no mundo."

O Drow puxou de sua trança um pino preto, adornado com marcas vermelhas - a trança, porém, se manteve perfeitamente estável mesmo sem o objeto. Segurando delicadamente na mão direita, proferiu algumas palavras até que as marcas iluminaram-se e, subitamente, uma imagem projetou-se nos ares, formando a visão de rochas se chocando, lava emergindo aos céus, ventos gritando em fúria. Aemus não estava acostumado a ver magia de tão perto; ninguém em seu lar estaria.

"Isso, jovem, é a criação da terra, dos mares, das árvores, e depois as bestas que vagam por ela. É o que chamamos de Conflito Primordial. Fogo se chocava com Água, Terra se chocava com Ar, Tudo se chocava com Nada. E assim surgiu o mundo, através do conflito. Esse conflito ainda existe em todos os lugares, entre todos os seres, nas mais imperceptíveis reações. Nascemos porque rompemos o conforto do útero de nossa mãe; ficamos doentes porque nossos corpos perderam uma batalha contra a natureza, e nos curamos naturalmente porque vencemos a guerra seguinte e triunfamos; por fim, lutamos porque algo há de se ganhar com essa luta. Sempre há algo a se ganhar com a luta, jovem Aemus, aparentemente você sabe disso muito bem."

“Dinheiro, bebida, comida, prazeres, respeito...sobrevivência.” Aemus não diria isso em voz alta, mas concordava com o drow.

“Muito bem. Dessa forma, o que você fazia era mover a Roda da Guerra, sem dúvida alguma, apesar de numa proporção extremamente insignificante.” Disse Thaywin. Ouvir a insignificância de sua existência fez Aemus apertar os dentes - uma pontada de orgulho ainda rugia dentro dele. Seu professor claramente notou isso, mas à frustração maior ainda do garoto, simplesmente fez questão de ignorar, continuando sua lição.

“Não conheço sua vida intimamente. O que sei é como encontramos você, como estava seu corpo, os poucos boatos sobre um ‘rei dos pobres’, e como Selgaunt pode ser um lugar difícil para alguns. Se minha intuição e informação estiverem corretas, você realmente é o órfão Aemus, rei pobre de Selgaunt. Brigando para conseguir tudo que tem, fazendo amigos pouco confiáveis, desrespeitando a lei de Sembia, vencendo as batalhas que podia, e não parando de brigar mesmo quando o outro virava as costas para ir embora. Parece que finalmente perdeu uma batalha de uma vez por todas, e estaria morto se não fosse por nós.”

Mais uma vez, Aemus continha sua frustração de ter a maior derrota de sua vida esfregada em sua cara mais uma vez, como a lama misturada com sangue quando foi largado fora da cidade para ninguém encontrar. Não sabia o nome de seu assassino, apenas que era um mercenário. Sentado com os punhos cerrados no colo, continuou ouvindo em silêncio as palavras cortantes do drow.

“Imagino que você tenha achado que seria fácil - mais uma luta que, se você perdesse, era só virar o punho em outra hora que ele não estivesse esperando. Mas ele era grande demais, forte demais… inescrupuloso demais. Não era de Selgaunt nem de perto de lá, não lhe conhecia nem respeitava, estava cagando e andando pra quem era o ‘rei dos pobres de Selgaunt’.” As palavras doíam no âmago de Aemus tanto quando os socos e ossos quebrados que sentira em todo seu corpo. “Deve ter sido humilhante, mas foi um movimento burro. Você não fazia a mínima ideia de quem era o homem, e estava acostumado com a vitória e seu status.”

O jovem tornava seus olhos em fúria, os punhos pensando em onde acertariam o drow idiota. Na cara? No estômago? Talvez na boca, para ele não falar mais nada de uma vez por todas. Ele ainda continuava falando, e isso o irritava.

“Seja lá o que você tivesse conquistado em sua vida, Aemus, tudo se perdeu. Você não tem mais o respeito de seus duvidosos amigos, nem da comida e bebida que ganhava de apostas, nem mesmo o lar que supostamente tinha nas ruas de Selgaunt. Você perdeu, tudo por causa de uma burrice.”

“Você perdeu porque podia ter pensado mais.”

“Você perdeu porque queria aumentar seu ego.”

“Você perdeu porque não sabe lutar direito.”

Em um instante, o jovem Aemus ergueu-se do banco onde estava, jogando-o para trás e impulsionando-se para cima do drow que o humilhava. Sabia que não era capaz de lutar rapidamente, mas se acelerasse o suficiente, poderia pegá-lo de surpresa. Um golpe, era isso que precisava. Preparou o punho direito com todo o impulso de seu corpo e arremessou-o num berro contido por dias de viagem e humilhação e orgulho ferido.

Para sua surpresa, Thawyin notou claramente o seu golpe, desviando-se para o lado com a sutileza de uma sombra. Controlando-se para não acertar a parede, Aemus rolou no chão e acertou as pedras com as costas, querendo buscar o impulso do baque em seu próximo golpe, dessa vez um gancho esquerdo. Porém, seu soco foi facilmente aparado pela mão do drow, afastando os punhos do jovem de seu rosto. Em desespero, Aemus lançou mais um soco com a outra mão. Não conseguiu perceber quando o pulso foi segurado em um gesto maestral, e quando notou o que estava acontecendo, seu corpo inteiro estava sendo arremessado por cima das costas de Thaywin sem absolutamente nenhuma dificuldade.

(Música)

Algum tempo se passou, não sabia quanto, de seu corpo no chão. Notou, porém, no instante que abriu os olhos, que seu vencedor estava olhando para ele, exatamente da forma que o largou quando caiu. Um detalhe havia mudado, porém - Seu olhar ainda penetrava sua alma, mas a força dos olhos se quebrava com um sorriso tímido, mas terno. Para o descontentamento de Aemus, Thaywin não o esperou levantar do chão para voltar a falar.

“Você luta bem, Aemus. Mas é confiante demais.”

Thaywin estendeu a mão para o jovem, que ainda estava incrédulo e atordoado o suficiente para não processar o que estava vendo. Ainda com a mão estendida, o drow continuou discursando.

“Tenho fé que o Foehammer o trouxe aqui nesse momento por um motivo, da mesma forma que levou meus irmãos a encontrá-lo semi morto em Selgaunt. Repito que não sei de sua vida de verdade, o que o levou a lutar contra aquele que o derrotou, e o que te fez ser esse espírito da luta, mas sei que sua vida está longe de acabar nesse momento. Você cumpriu um propósito na Roda da Guerra, Aemus, você lutou, e o conflito dessa luta o transformará para sempre. Levante, guerreiro, há em você uma força capaz de destruir tudo que encontrar, e dessa destruição, recriar o mundo de novo e de novo e de novo. No tempo certo você vai saber quando destruir, e quando calar suas armas. Agora, eu repito: levante-se, Aemus. Ou deveria chamá-lo de irmão?”

Olhando para o rosto sereno de Thaywin, Aemus segurou sua mão e levantou-se. Sabia que poderia puxá-lo e continuar a luta, mas não o fez.
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Intermezzo II – Mais Daerlum...
https://youtu.be/yvjuv4IIKcU
E não é que a Corrente finalmente se estabeleceu na megalópole de Daerlum? A piada liderada por Mario parecia esperar que seus problemas acabariam com a entrega da chave a Piratão (a despeito de ainda serem vassalos de um poderoso Lich, e deverem encontrar as Abadjagas!). Não poderiam estar mais enganados. Devido ao atraso, e ao fato da chave ter sido entregue dias antes por Gragnar, o traidor, o renomado mafioso negou-se a conceder mais do que cem peças de ouro, peças estas logo abocanhadas por Thetas. Eis, porém, que Thetas some pela cidade (provavelmente perdido em sentimentalismos acerca de seu pai), e o General vê-se em uma situação difícil com sua nova montaria, Brio, o qual necessitava de uma cara licença para ser mantido nos estábulos da nova “República de Sembia”. Bah! Eles não tinham este dinheiro. Helen então tem a ideia de pedir o dinheiro emprestado a Perna de Pau, o dono da taverna Língua de Sapo, que toma como penhor o amado manto da barda, e promete devolver quando Piratão e seus capangas desocuparem a taverna. Que acordo!
A aparição do mendigo Bira, e o fato de entregar um mapa detalhado de Daerlum para Aemus e Manco dá à corrente uma nova base na qual trabalhar, claro, ao módico custo de realizar o “Sonho do Bira”!
No meio disto, Nixilis é convocado por um misterioso som de flauta (seria um chamado de Sylvanus?) e encontra, moribunda, sua mãe adotiva Lesha, que lhe entrega um valioso documento perdido pelas eras, e é prontamente levada ao templo de Lathander, sobrevivendo, mas ao custo de ver seu amado Nixilis enfrentar a guarda da cidade, o que poderia trazer consequências nefandas. Movran preocupava-se em conectar-se com Lathander, e descobrir a função e a história do misterioso cubo que insistia em chamá-lo, continuamente. Depois de uma rápida audiência com Agennus Vul, o Pontífice de Lathander, o feiticeiro teve duas certezas: Deveria investigar o misterioso elfo visitante do templo, e o fato de que a igreja de Lathander o havia decepcionado...Quem sabe não encontraria melhor sorte no Mosteiro da Última Luz?
Acompanhada por Manco, que agora era um membro efetivo, a Corrente reúne-se na adega de Perna de Pau, e após uma breve divisão de tarefas, fica determinado que Nixilis e Helen deverão encontrar Bira, o mendigo errante pelos arredores do distrito do Mercado, mas o motivo disto ninguém parece entender bem. Ora, ordens são ordens, e General Mario é o líder. O encontro desastrado com o mendigo dá errado, e após Helen sofrer o perigo de ser violentada, a vida de dois guardas da República de Sembia é jogada fora, mais especificamente por cima de um muro em uma viela. A testemunha, o esperto Bira, com suas meias palavras, desfere mordazes ameaças veladas, e urge nossos heróis a conseguir 80 peças de ouro, e rápido, ou então “alguém” poderia, “talvez”, contar o que vira naquela viela suja.
Aemus e Mario, por sua vez, focaram-se em obter uma negociação mais justa com Samos Aziz, uma vez que agora realmente necessitavam que ele saísse de perto da Língua de Sapo. O reticente mafioso concedeu mais uma chance da corrente provar seu valor, e entregando a misteriosa chave, determinou que eles fizessem a escolta noturna desta, nos arredores da cidade, até a chegada de um comprador desconhecido, que tinha alguma relação com o termo “IACT”.
Enquanto isso, o clímax das descobertas: Movran, acompanhado por um Draconato com amnésia, e posteriormente por toda a Corrente, descobre que o elfo misterioso é Thaunviel... Mas quem é Thaunviel? Aparentemente, um poderoso mago, que em decorrência de um ataque mal planejado, contra um poderoso fiend, desejava ardentemente um antigo e perdido artefato conhecido como “A Chave dos Mundos”, que poderia criar e manter portais para outros planos, sem riscos e por tanto tempo quanto necessário. Acontece que o mensageiro de Thaunviel, encarregado de encontrar um tal General Mario Catilina na taverna Língua de Sapo, fora interceptado por um brutamontes chamado Venn, que por acaso trabalhava para Samos Aziz, que descobrira toda a trama, e a localização aparente do artefato. Nada tolo, percebeu que poderia lucrar muito com a Chave dos Mundos, e encarregou, por pura ironia do destino, ninguém menos que os mercenários da Corrente para pegá-la...
Diante de um Thaunviel aflito (e que por acaso sequestrara o cubo de Movran) a Corrente se compromete a, de alguma maneira, manter a chave em seu poder, mas encabeçada com o dilema de manter a palavra e o contrato feito com Piratão, deslocam-se pensativos para o local combinado, esperando lograr alguma maneira de satisfazer o pacto com Aziz e ainda assim ficar com a Chave.
Mas tudo deu errado. A despeito das tentativas bem intencionadas e engenhosas de Manco, a Corrente pouco logrou do comprador misterioso, a não ser descobrir que se tratava de Mymus Purpleglove, simplesmente um dos comerciantes mais ricos de toda Daerlum, e que em um futuro próximo (um mês!) poderia vir a se tornar o líder eleito de Sembia.
Aflitos e pensativos, a Corrente se descabelava em tramoias possíveis para recuperar a chave, quando um rugido vindo da floresta chamou a atenção do Tiefling...O Troll Thyrsul, dono originário do cubo, fora rapidamente derrotado pela agora poderosa Corrente, sendo chamuscado repetidamente pelo fogo abrasador de Movran (ou de Kossuth?) e finalizado com um golpe certeiro do Hammer de Tempus. Mas a noite é escura e longa, e os choros de um garotinho parecem indicar que a Corrente ainda está, para todos os efeitos, Nel Mezzo del Cammin...

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Sembia
https://youtu.be/Z7y-s8yG6oI

É, definitivamente as coisas estavam estranhas em Sembia. Depois da escuridão ter tomado a maior parte do antes próspero e crescente país, o que restava de grandes cidades como Ordulin era pouco mais que uma enorme cratera, morte e destruição. Algumas cidades, como Daerlum, conseguiram se manter independentes, ( graças a Cormyr, principalmente) mas as circunstâncias agora exigiam que as cidades da velha Sembia voltassem a se unir, inclusive aquelas recem liberadas do domínio do Império de Netheril. Nem o tino ganancioso dos comerciantes, nem o porte arrogante do que restava da nobreza poderiam fechar os olhos diante de viúvas de faces magras e órfãos de olhos que se iluminavam com a menor possibilidade de ter comida e talvez, um lar. Um grande projeto de reestruturação precisava ser feito, e as poderosas famílias aristocráticas e guildas já colocavam seus planos em ação. É verdade, por poder, mas poder este que poderia trazer uma vida melhor para os sembianos. Os lordes comerciantes se reuniam cada vez mais, e tiveram conjuntamente uma ideia:
Começava a se organizar a nova eleição para o Tisroc, líder supremo da República de Sembia. Alguns nomes despontavam: Mimus Purpleglove, um dos mais ricos comerciantes de toda Faerun; Matara Soberis, uma mulher misteriosa e influente, que contava com o apoio indiscutível das grandes guildas; Apolo Balkor, um brilhante líder popular que sabia fazer política. Os três cenários não pareciam lá extremamente favoráveis, mas o povo dava de ombros e continuava seu trabalho. "Com certeza será melhor do que antes!" Exclamavam todos, esperançosos. Não imaginavam o quanto poderiam estar equivocados.
Em meio a isso, as guildas de comércio se erguiam, ricas e poderosas, e por sua vez investiam em outras guildas; bordeis, ladroes, mercenarios, artistas e magos. "O dinheiro tem que rodar!" Afirmavam os plutocratas. O problema é que todo sembiano que se preze gosta de dinheiro, e gostaria de vê-lo concentrado em suas mãos.
Uma coisa que se poderia dizer de Sembia é que é uma terra de aspirações: Todos aspiram por algo, e empregam seus meios para tal. Uns querem dignidade e honra; outros, dinheiro. Alguns buscam um significado ulterior para a própria existência; outros ainda, um justo destino que inclua aventuras, boa companhia, e talvez vingar uma causa importante.
Quanto a isso, não há problema. O problema está em efetivamente alcançar os fins almejados. A impressão que paira, pesadamente, em Sembia, é uma só: o domínio de shar está longe de ser completamente expulso, e forças do mal perambulam, matam e negociam. Como vítimas de um feitiço misterioso, todos que almejam crescer e tem um objetivo final fixo não conseguem progredir; suas pernas bambeiam e suas pálpebras pesam. O dinheiro falta e as magias falham. As armas se quebram e a esperança tem um sabor amargo. E por mais que andem, parece que estarão sempre... Nel Mezzo del Cammin.
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Convergência
...
Movran esmurrou a mesa onde estava sentado, e perna de pau levantou os olhos.

"Droga! Essa cidade está podre. Todo o lugar está podre. O perna de Pau foi consumido por condescendência."

Thetas murmurou algo baixinho, e saiu pela frente.

"Humpf! Thetas e Helen foram contaminados. E verdades ardem. A verdade arde como o fogo...."

Suas sobrancelhas se contraíam em uma expressão de fúria contida, contida por mais quanto tempo? O fogo já havia se alimentado em sua fornalha interna há muito, e agora o próprio Movran parecia querer debulhar-se em chamas como um vulcão. Por sua mente, em lampejos, as figuras de Anmar, Gragnar, Piratão, e outras mais, algumas desconhecidas, todas queimando.

"O Piratão construiu seu reino em cima do lodo, em cima da pilha de sujeira que se tornonu esse lugar. Governa um submundo de falcatruas e abusos e as pessoas assentem, inertes ou impotentes....

Gragnar não fez nada mais do que sempre soube fazer. Talvez coagido? Não! Ele teve escolha. Salvamos ele, estávamos junto. É apenas um dos maliciosos tentáculos do Piratão...ou talvez seja seu próprio núcleo de imundice.

Anmar...Ah, a verdade arde....arde em mim. Submetido aos caprichos de um lich por impotência, ou incopetencia? O fato é que Anmar é a epítome da crueldade. Talvez nem sempre tenha sido, mas hoje é. Existe uma chance de redenção, o livramento da sua alma atormentada pelo fogo sagrado!

“Abracem o fogo, imbecis. Todos vocês. E todos que contribuem para que essa cidade perpetue como antro de corrupção e malefícios.

Ok, tudo a seu tempo. Ao mesmo tempo que as chamas de Kossuth são impaciantes e devastadoras, a luz de Aumanator é ampla e justa e alcança os recôditos mais improváveis e inacessível levando justiça aos merecedores e o reanscer de Lathander sucede a escuridão da noite. E eu sou a convergência! Sou a justiça do Sol que fará todas as coisas renascerem e se purificarem sob o expurgo do fogo!

Preciso ter paciência. Preciso me concentrar. O fogo antecipado é imprudente e queimará inocentes. Como já aconteceu. Ainda que por desconhecimento, o garoto teve seu fim desta vida. Só espero que Lathander tenha permitido sua nova aurora!!

Sim, se Aumanator me guia no caminho da justiça, é Lathander que me guia no caminho da bondade. E, por Lathander, me manterei firme, em meu propósito. A Aurora vem depois da noite....e para Anmar, Gragnar, Piratão e os outros que escolheram as sombras....a noite está acabando, e eles vão abraçar o fogo!!
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Intermezzo I - Daerlum
https://youtu.be/N2Pb_jpSyiE
O ar quente e abafado da cidade lembrava a Aemus um pouco de sua infância e juventude pugilista. Mas isto não necessariamente lhe dava vontade de passear, ou nem mesmo de respirar profundamente. Parecia o abraço abafado de um passado já superado. Agora ele era um Hammer de Tempus, e não tinha interesse em nada que não fosse o serviço de seu deus. Sabia também que esta era uma tarefa árdua. Suspirou. O olhar das pessoas enquanto passava, fedorento, dirigindo-se à fonte da praça principal! E olha que ele estava com uma túnica com um grande e portentoso símbolo de Tempus. Mas as pessoas não respeitavam-no por isso. Sua fé havia esmorecido há um tempo, e talvez fosse o papel da Nova República de Sembia tomar o lugar que outrora tomou Tempus, para proporcionar um ar belicoso às pessoas comuns. Aemus fechou os punhos. “Usar o que tenho”.
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“Alto lá, velho!” Gritou o guarda responsável por checar os passaportes dos viajantes. Mario ergueu as grossas sobrancelhas, em um gesto quase desafiador. “Você ouviu o que eu disse para as bichas dos seus amigos. Se quer passar, vá pegar seu registro no Fórum do Cartório. Mas antes, deixe a figura equestre nos estábulos. Não queremos uma cidade cheia de merda de cavalo por aí, queremos?” Disse, com um canto de boca, o zombeteiro guarda. O General Aposentado soltou um resmungo, e o guarda lhe apontou um imenso estábulo perto da guarida principal. “Ei, ei, onde pensa que vai?” indagou uma guarda responsável pelos estábulos. “Acha que pode largar sua montaria em qualquer lugar? De graça não, colega. Você precisará de uma licença Stabularia, facilmente adquirível no Cartório. Já vou avisando, com ela você poderá usar os estábulos de todas as cidades da República, por cinco anos. E serão 100 leõezinhos.”. Mario soltou novo resmungo. Ótimo, agora além de ter que pagar, os outros Elos haviam sumido para dentro da cidade. Olhou para sua bolsa. Certamente precisaria que algum deles voltasse e lhe desse o dinheiro, senão... Deveria deixar o novo Altivo vagando por aí. Afastou-se um pouco e montou no cavalo, praguejando alto. Estava tão atônito e zangado que não percebeu quando o oficial responsável pela guarida principal fora arrancado de seu posto à força, nem quando um homem de túnica anunciou: “Pelo crime de receptação de moeda não categorizada e permitida no erário da República de Sembia, o Oficial Rublus Sei fica por meio deste ato condenado à pena de trinta chibatadas, e licença compulsória por duas dezenas”. O pobre jovem não sabia o que fazer, e antes que pudesse escarrar seu tabaco, foi logo levado à praça executória. “Malditos Estábulos”.
...
Movran esmurrou a mesa onde estava sentado, e perna de pau levantou os olhos. Thetas murmurou algo baixinho, e saiu pela frente. Suas sobrancelhas se contraíam em uma expressão de fúria contida, contida por mais quanto tempo? O fogo já havia se alimentado em sua fornalha interna há muito, e agora o próprio Movran parecia querer debulhar-se em chamas como um vulcão. Por sua mente, em lampejos, as figuras de Anmar, Gragnar, Piratão, e outras mais, algumas desconhecidas, todas queimando. “Abracem o fogo, imbecis”, e Movran queimava-os mentalmente. Uma leve chama ergueu-se de sua mão, assustando Rosette. Malditos. Anmar era o puro mal, o mal que o fogo de Movran deveria consumir, e transformar em pó. Sua crueldade com o unicórnio deixara-o tão estarrecido que sequer fora capaz de pensar em negociar, e sabia que sua vida estivera por um fio nas mãos do lich, tendo Aemus que interferir como outrora o próprio Movran o fizera para salvar o General. Ficara tão consternado que as negociações com Piratão saíram do planejado. O sorriso amarelo e podre do pirata aparecia como uma candeia em sua mente incendiária. Se pudesse esganar o mafioso com suas próprias mãos o faria. Aquele sorriso desonesto e zombeteiro, que capturava a oportunidade pelos cabelos.. E ainda havia o anão traidor. De uma certa maneira, Movran pegara-se pensando que Gragnar poderia merecer qualquer vingança que Anmar pudesse realizar, se não ajudasse a recuperar as Abadjagas..Mas mesmo assim, tinha tentado avisar o ex companheiro. Mas a vontade de queimá-lo não arrefecia. “Acalme-se, Movran. Lathander Amaunator ainda arderá pela Justiça. Tudo ficará certo, espero.”
...
“Veja, Aleijadinho, a sua incompetência já nos custou muito. Você desonrou o nosso nome. Perdeu mais da metade do contingente. Mandou o Burka para a morte. Para pagar uma dívida sua. Estamos cansados de você e de suas fanfarronices. Por quê estamos num beco, você pergunta? Ora, você não achava que ia se safar e ainda ficar com os itens só para você, né? Tenho uma novidade, eu serei o líder dos Mantos Brancos agora. Não é, rapazes?”
“É um motim! Se me matarem, certamente virão outros amigos meus , e vocês se arrependerão de terem nascido.”
Um sorriso terrível e cruel.
“Ah não, manquitola. Nós não mataremos você. Mas faremos pior do que você fez com aquela vadia elfa, Liefgail. No fim, a destruição será maior que a que você fez embaixo de sua saia enquanto ela estava desacordada. Hahaha.”
...
O colégio dos Bardos erguia-se, imponente, perante Helen. Tantas lembranças, tantas risadas e canções. Esboçou um sorriso. Sua aventura tinha culminado na corrente, mas começara com uma trouxa de roupas e um adeus anuviado de sua mãe. O Colégio fora sua segunda casa, e a flauta, sua primeira ocupação. Mas havia inspirações maiores a serem alçadas. Seus poderes curativos cresciam à medida em que ela acompanhava a corrente, e Helen sentia-se uma mulher mais madura desde que ingressara sob as severas ordens de Mestre Calug, talvez o maior bardo de toda Sembia. Ele lhe ensinara disciplina, ritmo, harmonia, e paixão por sua arte.
Helen abraçou seu manto. Lembrou-se de percalços após sair do colégio, e uma pequena lágrima escorreu por seu nariz. “Há lembranças que ficam mais belas intocadas”.
...
Nixilis observava a vida cosmopolita, agitada, febril e pobre de Daerlum. As pessoas lutando sua luta diária, raivosas e mal humoradas, e para quê? Um pedaço de pão ou uma libra de peixe no fim do dia?! Talvez algumas moedas inúteis? A vida na floresta era bem melhor. Como poderiam limitar-se esse tanto? Ainda assim... Nixilis sentia um senso de pertença à corrente, e ao modo dela lidar com os contratos. Certeira e objetiva, como uma flecha bem lançada contra a presa. E era uma corrente que precisava da ajuda de Nixilis, um exímio rastreador. Não sabia, porém, se poderia ser útil em Daerlum. “Quem sabe..”
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Epic!
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