"Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
Dizer qual era é coisa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa.
Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras coisas que vi, direi verdade..."

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Intermezzo I - Daerlum
https://youtu.be/N2Pb_jpSyiE
O ar quente e abafado da cidade lembrava a Aemus um pouco de sua infância e juventude pugilista. Mas isto não necessariamente lhe dava vontade de passear, ou nem mesmo de respirar profundamente. Parecia o abraço abafado de um passado já superado. Agora ele era um Hammer de Tempus, e não tinha interesse em nada que não fosse o serviço de seu deus. Sabia também que esta era uma tarefa árdua. Suspirou. O olhar das pessoas enquanto passava, fedorento, dirigindo-se à fonte da praça principal! E olha que ele estava com uma túnica com um grande e portentoso símbolo de Tempus. Mas as pessoas não respeitavam-no por isso. Sua fé havia esmorecido há um tempo, e talvez fosse o papel da Nova República de Sembia tomar o lugar que outrora tomou Tempus, para proporcionar um ar belicoso às pessoas comuns. Aemus fechou os punhos. “Usar o que tenho”.
...
“Alto lá, velho!” Gritou o guarda responsável por checar os passaportes dos viajantes. Mario ergueu as grossas sobrancelhas, em um gesto quase desafiador. “Você ouviu o que eu disse para as bichas dos seus amigos. Se quer passar, vá pegar seu registro no Fórum do Cartório. Mas antes, deixe a figura equestre nos estábulos. Não queremos uma cidade cheia de merda de cavalo por aí, queremos?” Disse, com um canto de boca, o zombeteiro guarda. O General Aposentado soltou um resmungo, e o guarda lhe apontou um imenso estábulo perto da guarida principal. “Ei, ei, onde pensa que vai?” indagou uma guarda responsável pelos estábulos. “Acha que pode largar sua montaria em qualquer lugar? De graça não, colega. Você precisará de uma licença Stabularia, facilmente adquirível no Cartório. Já vou avisando, com ela você poderá usar os estábulos de todas as cidades da República, por cinco anos. E serão 100 leõezinhos.”. Mario soltou novo resmungo. Ótimo, agora além de ter que pagar, os outros Elos haviam sumido para dentro da cidade. Olhou para sua bolsa. Certamente precisaria que algum deles voltasse e lhe desse o dinheiro, senão... Deveria deixar o novo Altivo vagando por aí. Afastou-se um pouco e montou no cavalo, praguejando alto. Estava tão atônito e zangado que não percebeu quando o oficial responsável pela guarida principal fora arrancado de seu posto à força, nem quando um homem de túnica anunciou: “Pelo crime de receptação de moeda não categorizada e permitida no erário da República de Sembia, o Oficial Rublus Sei fica por meio deste ato condenado à pena de trinta chibatadas, e licença compulsória por duas dezenas”. O pobre jovem não sabia o que fazer, e antes que pudesse escarrar seu tabaco, foi logo levado à praça executória. “Malditos Estábulos”.
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Movran esmurrou a mesa onde estava sentado, e perna de pau levantou os olhos. Thetas murmurou algo baixinho, e saiu pela frente. Suas sobrancelhas se contraíam em uma expressão de fúria contida, contida por mais quanto tempo? O fogo já havia se alimentado em sua fornalha interna há muito, e agora o próprio Movran parecia querer debulhar-se em chamas como um vulcão. Por sua mente, em lampejos, as figuras de Anmar, Gragnar, Piratão, e outras mais, algumas desconhecidas, todas queimando. “Abracem o fogo, imbecis”, e Movran queimava-os mentalmente. Uma leve chama ergueu-se de sua mão, assustando Rosette. Malditos. Anmar era o puro mal, o mal que o fogo de Movran deveria consumir, e transformar em pó. Sua crueldade com o unicórnio deixara-o tão estarrecido que sequer fora capaz de pensar em negociar, e sabia que sua vida estivera por um fio nas mãos do lich, tendo Aemus que interferir como outrora o próprio Movran o fizera para salvar o General. Ficara tão consternado que as negociações com Piratão saíram do planejado. O sorriso amarelo e podre do pirata aparecia como uma candeia em sua mente incendiária. Se pudesse esganar o mafioso com suas próprias mãos o faria. Aquele sorriso desonesto e zombeteiro, que capturava a oportunidade pelos cabelos.. E ainda havia o anão traidor. De uma certa maneira, Movran pegara-se pensando que Gragnar poderia merecer qualquer vingança que Anmar pudesse realizar, se não ajudasse a recuperar as Abadjagas..Mas mesmo assim, tinha tentado avisar o ex companheiro. Mas a vontade de queimá-lo não arrefecia. “Acalme-se, Movran. Lathander Amaunator ainda arderá pela Justiça. Tudo ficará certo, espero.”
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“Veja, Aleijadinho, a sua incompetência já nos custou muito. Você desonrou o nosso nome. Perdeu mais da metade do contingente. Mandou o Burka para a morte. Para pagar uma dívida sua. Estamos cansados de você e de suas fanfarronices. Por quê estamos num beco, você pergunta? Ora, você não achava que ia se safar e ainda ficar com os itens só para você, né? Tenho uma novidade, eu serei o líder dos Mantos Brancos agora. Não é, rapazes?”
“É um motim! Se me matarem, certamente virão outros amigos meus , e vocês se arrependerão de terem nascido.”
Um sorriso terrível e cruel.
“Ah não, manquitola. Nós não mataremos você. Mas faremos pior do que você fez com aquela vadia elfa, Liefgail. No fim, a destruição será maior que a que você fez embaixo de sua saia enquanto ela estava desacordada. Hahaha.”
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O colégio dos Bardos erguia-se, imponente, perante Helen. Tantas lembranças, tantas risadas e canções. Esboçou um sorriso. Sua aventura tinha culminado na corrente, mas começara com uma trouxa de roupas e um adeus anuviado de sua mãe. O Colégio fora sua segunda casa, e a flauta, sua primeira ocupação. Mas havia inspirações maiores a serem alçadas. Seus poderes curativos cresciam à medida em que ela acompanhava a corrente, e Helen sentia-se uma mulher mais madura desde que ingressara sob as severas ordens de Mestre Calug, talvez o maior bardo de toda Sembia. Ele lhe ensinara disciplina, ritmo, harmonia, e paixão por sua arte.
Helen abraçou seu manto. Lembrou-se de percalços após sair do colégio, e uma pequena lágrima escorreu por seu nariz. “Há lembranças que ficam mais belas intocadas”.
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Nixilis observava a vida cosmopolita, agitada, febril e pobre de Daerlum. As pessoas lutando sua luta diária, raivosas e mal humoradas, e para quê? Um pedaço de pão ou uma libra de peixe no fim do dia?! Talvez algumas moedas inúteis? A vida na floresta era bem melhor. Como poderiam limitar-se esse tanto? Ainda assim... Nixilis sentia um senso de pertença à corrente, e ao modo dela lidar com os contratos. Certeira e objetiva, como uma flecha bem lançada contra a presa. E era uma corrente que precisava da ajuda de Nixilis, um exímio rastreador. Não sabia, porém, se poderia ser útil em Daerlum. “Quem sabe..”
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Epic!
Seguindo a trilha...
Taverna. Procurando contato. Todos estão apreensivos, e o jovem Mr Tetas sugere tomar a dianteira em relação a um homem bem forte ameaçando outro, mais franzino, duas mesas à frente. Duas mulheres fazem queda de braço, e um barulhento grupo de anões bebe e canta. O homem forte perde a paciência, e se dirige à porta à esquerda do balcão. General Mario e os outros tentam acompanhá-lo, mas os anões fazem um rebuliço e derrubam o já idoso general. O homem grande desaparece pela porta, e Mr tetas tenta abri-la, sem sucesso. Movron tem a boa ideia de avisar o taverneiro que, nervoso, acaba ignorando o fato. Depois de uma conversa apreensiva, o taverneiro Perna de Pau acaba desabafando, ansioso por acabar com a influência oculta que faz com que sua taverna tenha tantas brigas e acabe tendo má fama. Promete 150 peças de ouro para quem livrar o Língua de Sapo dos subalternos nefastos dessa influência. A Corrente sai da taverna, e após largarem suas armas, General Catilina, Movron e Nixilis adentram em um prédio aparentemente abandonado, mas que se revela ser o quartel general de Samos Aziz, mais conhecido como O Piratão. Após uma conversa tensa e cheia de desconfianças, Piratão manda os elos para uma gruta conhecida como Boca da Serpente, a fim de recuperar uma determinada chave. Os mercenários desconfiam do que estaria acontecendo em uma sala adjacente, mas Samos lhes nega a entrada. Sem muita escolha, partem, com a companhia de Gragnar Birimon, um alegre e falastrão anão enviado por Samos Aziz para lhes guiar. Depois de um dia seguindo a trilha, o grupo e especialmente o feiticeiro Movron escutam um som perturbador, que abafado, preenche o ar como um fedor nausebundo. Também escutam o rufar de tambores, e ficam preocupados. Depois de mais um dia caminhando, decidem parar para descansar, quando escutam os urros de um grande urso pardo. Muito embora Movron tenha com sucesso espantado o animal com seus poderes de sangue de fênix, o urso volta para o acampamento na calada da noite procurando por comida. Inicialmente não hostil, acaba por atacar quando o General faz barulho demais desembainhando sua espada, e o fere gravemente. É porém morto pelas adagas rápidas de Mr Tetas e os cortes certeiros e mortais de Nixilis. O grupo não descansa porém, pois outro urso, maior, corre em disparada em sua direção. Através de uma magia bem direcionada de Movron, e do apoio tático oferecido por Mario, que fora curado por Ellen, ele é rapidamente subjugado sem causar danos, com a ajuda do pesado martelo de Gragnar. No turno do feiticeiro, porém, a Corrente é dominada por um sono profundo, e o anão Gragmar desaparece. O grupo segue viagem, mas é surpreendido por uma emboscada de goblins, que ferem gravemente Logan Stranger Tetas, mas são rapidamente vencidos, revelando uma trilha de sangue que adentra pela floresta de pinheiros. À frente, a Boca da Serpente se ergue, marcando o destino derradeiro, e pelo qual Piratão ofereceu 250 leões mais a promessa de retirar seus homens do Língua de Sapo. Ao lado da trilha, o sangue ainda fresco, impossível de ter sua fonte confirmada, jaz como uma lembrança da violência dos goblins e como um aviso de que os perigos agora eram reais. Valeria a pena arriscar o curto prazo de seis dias e meio oferecidos por Piratão para tentar salvar Gragnar?
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Epic × 2!
Sangue e Fogo
A natureza é sábia e ela nos ensina que a vida não tem meio termo. Ou se está vivo ou não. Alguém pode até enganar a morte, usar das forças da própria natureza para curar e para renascer. O cara pode até viver no limiar entre vida e morte...mas ainda assim estará vivo. E quando morre, a alma retorna aos deuses e corpo apodrece. Ponto. Simples.

A magia é a expressão máxima da sabedoria do universo. Ela imbui homens comuns com a centelha divina capaz de transformar, criar, destruir e mudar a realidade ao redor. Mas ela é uma força bruta e selvagem que obedece a lei da reação. Use-a de forma profana e será profanado, use-a para o mal e ela lhe dará o mal. Mas se usá-la para levar luz à escuridão, então será iluminado por ela e com ela alcançará a glória.

Os mortos-vivos são uma praga que violam a pureza da vida e seus criadores são desgraçados que merecem nada menos que uma morte lenta e dolorosa, para que possa experimentar o limiar, para que possam experimentar o que é estar entre a vida e a morte, para que possam desejar a morte como portal do alívio para a dor. Os N-Tel-Quessir são irresponsáveis capazes de atrocidades para conquistar o tesouro dos nossos antepassados.

Quem usa a magia em nome da escuridão não a merece. Mas a magia não faz distinção. É livre e tal qual deve ser usada para libertar e não aprisionar. Deve ser usada como portal para a iluminação e crescimento e, por viver isso, me oponho a todos que a usam com propósito contrário. É um poder de acesso restrito que deve ser colocado à disposição dos que não a compreendem, e não como ferramenta de tirania. Por isso, seu uso indevido deve ser eliminado.

Passei por duas grandes desgraças, uma causada pelos mortos vivos, outra causada por homens ambiciosos. Todos merecem o mesmo destino. Meu mestre, Oakspur, me ensinou muito sobre como ser tolerante, pois todos os seres vivos são parte do ecossistema. Mas também me ensinou a canalizar a força de Rillifane Rallathil, O Selvagem, e a usarei contra todos que ousarem subverter as leis da natureza. A ele, meu mestre dedico minha honra, e meus atos. Pois por ele jurei a vigança que recairá sobre todos que o mataram e sobre os que destruíram os Sy-Tel-Quessir.

É por meio da força da presença que permitimos que a weave se manifeste. Quando nos alinhamos a seu fluxo, ele flui através de nós e nos ensina a direcionar seu fluxo. Mas quando a presença é fraca, é possível subverte-la com o intelecto. Sou discípulo da magia, de Mystra, e nasci com o sangue da ave de fogo, a manifestação da weave em vida imortal que se renova para perpetuar as chamas que iluminarão a escuridão. E aprendi com a própria vida, com a própria magia, sobre a responsabilidade de carregar esse sangue, e aprendi de uma forma terrível.

Foi durante uma noite. A cidade estava em silêncio. Tivemos uma festa com outros fey e todos estavam inebriados. Mas eu estava acordado por que estava em treinamento e não participei da festa. O ataque veio silencioso, mas como eu estava concentrado, estava em comunhão e sentia tudo ao meu redor. Foi quando senti a presença gélida e profana dos monstros. Eles entravam nas casas, subiam nas árvores e matavam todos. Era monstros de carne putrefata e olhos vermelhos. Agiam sem emoção. Carregavam apenas a maldade de seu criador, que queimará nos nove infernos que eu o encontrar.

Estávamos brincando como sempre fazíamos. Fingíamos ser aventureiros e lutávamos com “espadas” que eram galhos de árvores e “armaduras” que eram pedaços de barris destruídos. Uma brincadeira inocente e sem perigos. Quando nos acertávamos ganhávamos apenas marcas avermelhadas na pele. Na maioria das vezes o galho quebrava. Mas era divertido e éramos verdadeiros amigos. Naquele dia um dos meus amigos tinha uma surpresa.

Eu gritei e acionai os alarmes. Quem conseguiu acordar fugiu carregando o que podia, chamando e resgatando quem podia. Infelizmente foram poucos. Eu consegui fugir, mas fiquei sozinho. Corri o máximo que podia. Corri até amanhecer e o resto do dia. Quando me esgotei cai no chão e apaguei. Acordei em uma gruta, na verdade uma cavidade de um largo a antigo tronco de carvalho. Tinha comida e água do meu lado.

Ele tinha ganhado uma adaga de um viajante que o ensinou que um verdadeiro guerreiro sempre tinha uma adaga escondida para emergências. E ele a escondeu e quando foi “derrotado” em nossa luta imaginária usou o punhal. No impulso ele nem pensou que o punhal não quebraria, que o dano seria mais do que uma mancha vermelha na pele. Agiu por inconsequência. Quando a ponta da adaga encostou na minha barriga, senti o sangue imediatamente ferver, literalmente, e senti o fluxo de energia arder dentro de mim e irromper numa explosão de fogo antes que o punhal pudesse me furar. Foi muito rápido e catastrófico.

Sai desconfiado e não encontrei ninguém. Ou vi voz grave, retumbante, lenta vindo do alto. Sim, eu me assustei. Eu era um tolo aspirante a ranger em Eerienne e assistir minha vila ser dizimada por mortos vivos. As cenas do massacre ainda estava na minha mente. Voltei para dentro da gruta. Ai senti o chão tremer. Em seguida galhos entraram pela abertura e me pegaram, foi quando vi meu mestre a primeira vez. Antigo, ancestral, grandioso, solene, imponente. Ele me adotou. Foi meu amigo, meu pai e mentor.

O meu amigo foi jogado longe de mim pela explosão de chamas e suas roupas incendiaram. Nosso outro amigo saiu correndo para chamar alguém e eu fiquei assustado demais para ter alguma reação. Vi ele agonizar até a morte, bem ali na minha frente, e fui o responsável. O mundo desabou em cima de mim. Cheguei ao fundo do poço moral em minha vida. Maseu era uma criança, inocente e ingênua e não fazia ideia do que tinha acabado de acontecer. Fiquei ali, parado, paralisado.

Oakspur era um ente. Tinha ouvido falar dele nos contos da vila. Mas nunca tinha visto um. Fiquei admirado. Qualquer um que veja um ente ficará admirado, não fraqueza, é a reação natural pois os entes são a expressão máxima da sabedoria das florestas. Em sua visão eu deveria aprender mais sobre as leis naturais em toda sua profundidade. Disse que eu estava superficial, mas que teríamos tempo de estudar essa nova maneira. Ele me ensinou a ser um druida. Me ensinou sobre a importância do equilíbrio e da tolerância. Para ele o habitante das vilas e cidades eram seres vivos também, apenas ignorantes da grandiosidade da natureza e ainda muito fechados à compreensão. Quando nos deixavam em paz, não era necessário fazer nada. E era bem claro quanto a mortos vivos. Oakspur não tinha ódio, mas não posso dizer que era tolerante a mortos-vivos.

Fui levado pelos meus pais. Fiquei em casa, no meu quarto, enquanto todos discutiam o que iriam fazer. Falaram de morte, falaram de prisão. Para mim, a morte seria um alívio. Não teria que conviver com a culpa. Mas talvez tenha sido aquele fogo que ardia dentro de mim, mesmo que eu não sentisse ainda, que me manteve firme. E secretamente torci para ter melhor destino que a morte. Por fim decidiram me jogar numa masmorra.

Eu convivia com meu mestre, com os fey que habitava o bosque das Árvores Emaranhadas e com os vizinhos, uma porção de animais que também habitavam em Oakspur. De vez em quando eu procurava pelos outros Sy-Tell-Quessir. Nunca encontrei nenhum. Oakspur me ensinou a concentrar a força da natureza, e que eu deveria representa-la onde quer que eu fosse, e mais ainda, que Rillifane me daria o necessário para eu ser esse representante. Aprendi muita coisa, mas não conseguia evitar a tristeza que crescia dentro de mim. Eu fingia que estava tudo bem, mas Oakspur percebia e se esforçava para desmanchar e mesmo assim eu só conseguia enxergar o quanto fui covarde, e ainda por cima me culpava.

Fiquei lá, esquecido. Não recebia visitas. Nem meus pais vinham visitar. Pensei no começo que iriam me matar, mas como passar dos dias via que isso não aconteceria. Ali dentro eu explorava as marés da auto-piedade. Eu era uma criança, não poderia pensar em nada diferente. Por outro lado não podia ficar alheio ao efeito que tinha causado minha prisão. Eu estava curioso, e tentava fazer retornar aquele fogo que explodiu dias antes. Mas só vinham lágrimas, de culpa, tristeza, solidão...Apenas lágrimas.

Esse sentimento me empurrava para um estado de depressão profunda. O interesse por tudo ia desparecendo. A floresta, os animais, o mestre. Só sentia cansaço, fraqueza, desanimo. Oakspur tentava de tudo para me animar, mas nada parecia surtir efeito. E mais uma vez aconteceu o que acontece quando somos fracos, quando agimos como imbecis. Os deuses nos mandam mensagens cobertas de sangue para nos despertar do torpor. O bosque foi atacado por malditos humanos. Eles eram devastadores. Abriam caminho com machados e fogo. Mataram feys, derrubaram árvores, prenderam animais. Eu fiquei ali vendo tudo e a única coisa que pensei na hora foi em fugir de novo. Ainda tentei convencer Oakspur a fugir. Mas ele ficou e lutou, e quando os humanos começaram a atacar o meu mestre eu senti uma ameaça iminente. Eu senti medo. Mas também senti a dor do ente. Nosso elo tinha crescido muito e éramos extensões. Aquilo me despertou da catatonia. Eu olhei ao meu redor e todos defendiam o bosque, até pequenos animais. E todos estavam juntos, pois assim é a natureza. Eu enxuguei as lágrimas e encontrei a força do ente dentro de mim e sai em defesa do bosque contra os invasores. Comecei devagar, mas logo virei selvagem. A tristeza e culpa foram se transformando em furia, que explodiu dentro enquanto eu lutava contra os invasores.

Dias viraram semanas, esqueceram de levar comida. Eu pegava água da umidade nas pedras das paredes, mas passei fome. Senti meu corpo encolhendo e definhando lentamente. Eu chorava e aceitava meu destino, aceitava a dor e o sofrimento, aceitava tudo aquilo como punição. E foi justamente quando estava mais debilitado, que minha linhagem de fogo se manifestou mais vez para me tirar da escuridão. Era praticamente uma autodefesa. Mas dessa vez veio de forma mais branda. Senti o ardor se espalhar lentamente pelo corpo. Senti o calor aumentar aos poucos e me concentrei nele com o resto de força que me restava. Tentei por tantos dias trazer o fogo e ele veio espontaneamente num estado de fragilidade. Eu só me concentrava nele, qualquer indagação que surgia eu tirava da mente me concentrando nele e aí minha mão começou a esquentar mais, a vi ficando vermelha até uma chama surgir nela. A chama cresceu um pouco e minha mão começou a doer com a queimadura e eu não resisti e a sacudi para apagar o fogo. Ela doía, mas eu senti alegria. Aquilo era real, e não foi apenas um surto que fez meu amigo morrer. Eu tentei de novo e sempre que a mão começava a doer eu recuava. Ai comecei a fazer tentativas segurando um rato que peguei ali a cela. Ele queimou e eu fiquei olhando ele queimar até sua vida acabar. Ver o rato queimado despertou meu apetite e eu o comi. Comi tantos ratos queimados quanto pude. A mão doía, e eu gritava. Ia administrando o fogo enquanto torrava os ratos e parando quando vinha muita dor. E quanto mais doía, mais irritado eu ficava e ansioso também.

Em pouco tempo não havia mais tristeza, apenas aquela motivação e a vontade de expulsar os invasores. Mas eu me sentia forte, poderoso. Sentia a força de Oakspur, dos fey e dos animais. E juntos conseguimos conter a invasão. Alguns deles morreram e muitos fugiram. Não contavam com a resistência, acharam que seriam apenas árvores inertes e bichos silvestres, conheceram da melhor forma a força da natureza, com a própria vida, com o próprio sangue derramado. Eu me senti vivo de novo, me senti parte. Agradeci a Rillifane e senti sua força selvagem dentro de mim. Mas quando recuperei o fôlego me deparei com o bosque devastado. Árvores assassinadas, animais mortos, fogo, destruição. Ai meus olhos encontraram Oakspur. Ele estava caído. Seus galhos ressecados, queimados. Seu tronco cortado. Ele respirava pesado e eu sentia sua vida escorrendo para a terra.

Uma hora minha mão queimou e o fogo não apagava. Gritei, tentei apagar, tentei apagar com a dor, soquei a parede, e estava prestes a desmaiar e percebi que seria inútil resistir e simplesmente me entreguei a ela. Ela cresceu e se espalhou por todo meu corpo. Foi quando senti pela primeira o fluxo de energia que me circulava. Ele abastecia essa chama dentro de mim e aos poucos ele foi se revelando e eu enxerguei como poderia conduzi-lo. Aquilo era muito excitante, e quando eu me deixei levar pela empolgação tudo se foi. As tentativas frustradas que vieram a seguir me ensinaram que eu precisava de uma postura diferente. Primeiro tinha que abrir mão da auto-piedade ou do sentimento de autopunição. O fogo ficou inerte enquanto eu sentia pena de mim mesmo, foi quando eu estava à beira da morte, quando minhas emoções tinham se esvaído e o instinto de sobrevivência se fez mais forte que ele retornou. Me protegeu da morte duas vezes. Eu precisava querer viver para ele se manifestar, precisava ser presente e não deixar o acaso me levar. E segundo, eu não tinha que tentar controlar, tinha apenas que deixar o fluxo seguir e ele ria me direcionar conforme minha necessidade. Cada compreensão dessa me deixava ainda mais forte. E mais uma vez a excitação foi crescendo à medida em que eu conseguia manifestar o fogo, cada vez mais naturalmente, cada vez mais forte...foi quando olhei para os lados e me deparei deparei com a realidade, eu ainda estava preso.

O fervor que senti na batalha cedeu lugar à raiva. Crescente e envolvente, foi aumentando como fogo em folha seca. Eu estava preste a explodir, mas eu a contive. Com toda força que tinha eu a engoli e a segurei dentro de mim pois Oakspur se mexeu e me olhou fundo dos olhos. Estava vivo. Um grande nó se formou na garganta e eu engasguei. Ele leu minha alma conturbada e disse, suavemente, para eu tranquilizar meu coração. Mas eu não queria me tranquilizar, queria deixar a raiva fluir e destruir todos, todos que dizimaram minha vila, todos que destruíram o bosque. Ele me segurou forte no braço e me alertou que a raiva nos consome e que a vingança infertiliza o solo. Mas eu não conseguia parar de pensar que essas destruições me perseguiam e eu precisava dar um basta nelas. Foi difícil, mas eu aceitei os conselhos dele, acenei com a cabeça e fechei os olhos tentando de verdade fazer tudo aquilo entrar e transformar meu ódio. Antes de ir definitivamente ele disse que esse é o ciclo e que não é o sangue que faz as pessoas, e sim suas intenções. Ele ficou inerte e se foi. Aquele dia eu chorei pela última vez. Aceitei a morte dele e suas palavras ecoam dentro de mim até hoje, e até hoje tenho dificuldade em seguir os ensinamentos. Prometi vingança em segredo. E eu vou ter minha vingança!

Sozinho na masmorra eu assumi a responsabilidade, eu matei o garoto. Reconheci também que foi algo involuntário, mas que eu não era vítima, e que o tempo que eu tinha passado ali dentro realmente tinha me ajudado a me redimir, a me arrepender, a rever minhas atitudes. E reconheci ainda que as pessoas ficaram assustadas e suas atitudes eram justificadas. Mas não era justo ser esquecido ali. E por isso merecia um segundo julgamento. Eu precisava sair dali. Primeiro fiz barulho. Muito barulho, mas foi em vão. Então me perguntei se aquele fluxo de energia não poderia me ajudar. Pensei no fogo, na energia que fluía dentro de mim e pensei no som ampliado e bati palmas para fazer barulho novamente. O som das minhas palmas explodiu num trovão que quase me deixou surdo. Ecoou pelo corredor da masmorra e eu torcia para que tivesse sido ouvido por alguém. Eu fiz de novo, e de novo, e de novo. Não sabia se era dia ou noite, então fiquei fazendo por um tempo esperando que chegasse à noite quando todos estivesse dormindo. E fiz várias e várias vezes. Quando desanimava procurava força para permanecer...e por Mystra, funcionou! Um homem veio e me encontrou ali embaixo. Ele ficou abismado e dizia repetidamente que não acreditava. Fui levado às autoridades e andei pela cidade e não vi ninguém conhecido. Eles estavam prontos para me liberar, mas o fariam sem todas as informações então contei o ocorrido. Me olharam desconfiados e assustados. Depois me explicaram que esse evento tinha ocorrido há mais de 10 anos. E estavam surpresos de eu ter sobrevivido na masmorra todo esse tempo. Poucos dias depois da minha prisão a cidade sofreu um ataque de mortos-vivos. A população foi quase inteiramente morta e a cidade tem se reconstruído desde então. E poucos dias antes, um grupo de mercenários trabalhando para uma tal de Nova Aliança tomou crianças como reféns na cidade exigindo que alguém os levasse até as Árvores Emaranhadas. Eles foram e retornaram alguns dias depois com ar derrotado, feridos e com raiva. Fizeram as pessoas cuidarem deles e sequestraram 3 moças que acharam bonita e duas crianças. Mataram alguns homens e foram embora. A cidade estava em choque, e a descoberta de um homem preso na masmorra por 10 anos não parecia ter muita importância. Eu fiquei aliviado de saber que não tinha sido esquecido. Que as pessoas que me prenderam o fizeram por justiça e não por maldade. Que meus pais não me visitaram pois não tinham opção.

Viajei pela floresta seguindo o rastro dos fugitivos e encontrei uma vila. Era a primeira vez que entrava numa vila de humanos. Era pequena, e diferente do que eu estava acostumado. Ficava nas margens da floresta. OS segui até ali e teria chegado já matando as primeiras pessoas que encontrei, mas lembrei das palavras de Oakspur. As pessoas me olhavam desconfiadas, e eu as olhava com raiva. Pensava em situações de fuga, em como matar cada uma delas. Oakspur tinha me ensinado a língua deles, e embora eu praticasse muito pouco precisava arriscar me comunicar. Quando falei o que procurava fui imediatamente cercado por imbecis. A guarda local nem ouviu direito o que eu disse. Mas era um bom sinal, não eram aliados dos invasores que mataram Oakspur. Ai um homem apareceu gritando para que todos parassem, como se eu precisasse dele. Ele se aproximou dizendo que eu não era um deles. Era tão obvio que segurei um riso. Depois se aproximou e se apresentou...quando ele falou fogo se referindo a ele mesmo já senti meu coração disparar e quis enforca-lo na hora. Mas eles também pareciam vítimas dos invasores, que disseram ser de uma tal Nova Aliança. Depois ele disse que iria atrás desse grupo e me chamou para acompanha-lo. Eu recusei. Não precisava de porta voz ou de ajuda de um humano. Eu ainda não estava pronto para esse nível de tolerância. Não matar todos era o que conseguia no momento.

Eu ainda estava estranhando a luz do sol, estava recuperando a força dos músculos, mas já tinha melhorado bastante em uma semana, e tenho certeza que o fogo sagrado me deu força para acelerar a recuperação. Tinha cortado a imensa barba e o cabelo e tomado um bom banho com sal. Já queria sair para ir atrás dessa Nova Aliança. Quanto mais tempo eu demorava menos tempo teriam as mulheres e crianças sequestradas. Eu era impelido pelo fluxo da weave que fluía em mim pelo fogo que queimava em meu sangue. Vi um alvoroço na praça central e ouvi pessoas falando de um habitante da floresta. Me aproximei para verificar. Vi um grupo de guardas apontando lanças para um elfo de pele esverdeada e muitas tatuagens e bem sujo. Gritei para pararem, precisava conversar com ele. Via ódio em seus olhos e fui cauteloso. Contei quem eu era e expliquei sobre o que aconteceu na cidade, e que por isso todos estavam assustados. Contei que também procurava pela origem dos mortos vivos e o chamei para irmos juntos. Ele recusou.

Fiquei escondido ao redor da vila e vi o homem que falou comigo saindo. Ele parecia pronto para uma viagem longa, e ele devia ter alguma pista dos invasores. O segui a distância. Ele viajava para sul. E seguia por estrada. De alguma forma ele me descobriu e eu me preparei para mata-lo, mas ele não foi agressivo. Simplesmente me chamou para o acampamento e me ofereceu a comida horrível dele. De alguma forma ele me lembrava Oakspur. Ficamos em silêncio. Mas para ele era difícil ficar em silêncio e começou a falar. Que tinha ficado preso, que tinha um fogo dentro dele...eu não queria saber de nada disso. Mas quando ele falou de mortos-vivos ganhou minha atenção. Aquela vila tinha passado pelas mesmas ameaças que eu e meu povo. O ataque morto vivo e agora a invasão desses homens que trabalhavam para uma tal de Nova Aliança. Para mim pouco importava. Disse que viajaria com ele, mas na hora que encontrássemos ele, eles eram meus.

Quando finalizei meus preparativos sai em direção ao ocidente seguindo a direção onde os mercenários da Nova Aliança foram. Mas logo que sai da vila percebi o elfo me seguindo. Primeiro fingi que não o vi. Mas assim que parei para passar a noite o chamei para o acampamento. Ele veio, pra minha surpresa, já que era tão desconfiado, e eu compreendia que fosse assim, devia ter passado por coisas ruins em sua vida. Eu também, mas éramos diferentes. Ele se reuniu e compartilhei minha comida com ele. Ficamos em silêncio por longos minutos, mas eu estava muito curioso e comecei primeiro contando minha história. Ele estava visivelmente desinteressado, mas mesmo assim continuei. Mas teve algo que falei que despertou a atenção dele e subitamente ele começou a me encarar. Continuei a história e ele me interrompeu para dizer que viajaria comigo, mas que os mercenários eram “dele”. Eu tinha acabado de fazer aquele contato e não queria discutir com ele e me segurei para não falar que discordava. Também não falei que estaria de acordo e fiquei em silêncio.

Depois de alguns dias viajando encontramos alguns homens da Nova Aliança. Eu os via e minha boca salivava, eu não esperava a hora de poder cravar meus dentes na garganta de cada um. Fazer cada um deles sentir tanta dor que implorariam pela morte, e depois eu simplesmente os deixaria largados à própria sorte esperando que definhassem até morrer. Eu fiquei um tempo observando, buscando estratégias e criando planos. Mas o tagarela acabou com o plano quando avançou e abordo os homens se apresentando, dizendo que tinha o sangue da ave de fogo e que eles poderiam se entregar e mais um monte de asneiras. Eu não conseguia acreditar. Quando percebi que naquilo não ia ser bom, corri em disparada e aproveitei que os homens estava distraídos com o discurso. Contornei um pouco apenas e ataque me jogando sobre os homens ao redor de uma fogueira com o cajado.

Depois de alguns dias seguindo as pistas encontramos nossos algozes. Eles estavam sentados num acampamento. Sem demora me aproximei proclamando me apresentando. Eu tinha sangue da ave do fogo correndo em minhas veias e eles precisavam saber disso, precisava saber que enfrentariam a chama da purificação. Mas antes que eles pudessem reagir ao meu apelo o elfo correu e avançou sobre os homens os surpreendendo. Era inconsequente. Eles eram 6, e um ataque direto parecia má ideia. Me concentrei e deixei a energia fluir por mim, soltei outro estrondo daqueles para assustá-los e dei alguma vantagem para o elfo, e então liberei o fogo da iluminação sobre eles.

Acertei o primeiro com uma mordida. Queria sentir o gosto do seu sangue para saciar minha sede de vingança. Depois os acertava com o bastão e de longe o homem lançava rajadas de fogo. Um dos malditos conseguiu me segurar e um outro se aproximou com uma espada. Senti a ponta dela furando minha barriga ai vi chegar a cabeça de um martelo que o acerto no peito jogando ele pra trás junto com sua espada. O dono do martelo era um homem grande com uma armadura volumosa. Seu martelo também era certeiro. Derrubou dois homens. Eu derrubei mais 2 a as rajadas de fogo derrubaram mais um. O último tentou fugir, como esses covardes costumavam fazer. Eu corri atrás dele e arremessei o bastão que o derrubou. Voei em cima dele sentindo uma vibração no corpo. Uma euforia impossível de explicar. Arranquei a pele dele com minhas próprias mãos e os seus gritos de dor me davam êxtase. Eu o reconhecia da floresta e despejei nele toda aquela raiva que guardei quando Oakspur me segurou antes de sua morte. Os golpes vinham com gritos e lágrimas. Um desabafo há muito contido. O homem do fogo e do martelo assistiam com certo horror. Eu fiquei exausto. Apenas cai ao lado do corpo dilacerado e chorei de novo. Como achei que não conseguiria.

Eu usei disparei o fogo sagrado nos mercenários enquanto o elfo os acertava com seu cajado. De longe ele parecia um animal acuado, lutando de forma selgavem, mordendo, batendo e rosnando. Era eficiente, porém inconsequente e desatento. Um homem o segurou por trás e o outro estava com a espada já furando seu abdomem quando chegou o sacerdote. Ele veio correndo em sua armadura pesada e num impulso acertou o martelo no homem com a espada que voou. Meu fogo acertou o outro que segurava o elfo. O martelo derrubou mais um, e o que sobrou tentou fugir. Eu o iria interroga-lo, mas precisava chegar nele antes do elfo. E falhei. Quando me aproximei o homem estava caído com o elfo em cima dele furando seus olhos com as mãos. Eu pedi que parasse para fazer perguntas. Eles não eram os únicos e pelo que disseram, não passavam de mercenários. Precisávamos chegar na Nova Aliança. Ele me ignorou por um momento, mas depois parou e me deu razão. Porém era tarde. O homem já estava morto. O homem do martelo era um sacerdote de Tempus, agradeci a ele. Resgatamos as mulheres e as crianças. Fiquei horrorizado com o elfo, por outro lado queria compreendê-lo. E quando o vi chorando conclui que ele tinha encontrado a luz. A fogo que ardia dentro de mim tinha iluminado a escuridão nele. Abracei minha missão e agora colhia a recompensa e via o que julgava um homem ferido encontrar suas cicatrizes.

Eu me sentia realizado. A raiva dentro de mim tinha encontrado descanso. Pelo menos temporariamente. Era um alívio temporário, mas eu tinha reconhecido pelo menos um desses homens e o matei. Arranquei sua vida com minhas próprias mãos. Eu me sentia satisfeito como se tivesse saído de um banquete. Sentei ofegante e vi o homem conversar com o cara do martelo. Ele me salvou. E o homem do fogo também. Com o desejo de matar temporariamente controlado fiquei perdido. Me dei conta do quanto a vingança me guiou e agora estava sem rumo. Meu mestre estava morto, minha vila destruída. Retornar e tentar encontrar os fugitivos do meu povo, ou seguir saciando minha raiva, seguir com minha vingança que poderia ser infinita? E acompanharia aquele feiticeiro e seus truques de fogo? Seria ele confiável ou mais um esperando a oportunidade de transformar a natureza em cinzas em busca de poder? Eu precisava decidir...

As mulheres precisavam retornar para a vila. Eu as podia levar, mas acabaria ai? Retornaria para mima cidade e me estabeleceria como seu protetor, pois recebi a chama sagrada da ave de fogo e a usaria para proteger os fracos. E ali esperaria que a Nova Aliança retornasse com novas ameaças. Ou sairia em busca deles, da origem dessa organização de escuridão e levaria fogo que pulsava em mim para iluminar os confins sombrios dessa Nova Aliança e acabar de vez com esse mal? E andaria ao lado daquele elfo visivelmente perturbado? Por mais que eu tentasse entender suas dores, será que elas tinham acabado de verdade ou eu acordaria algum dia com ele a arrancar minhas víceras? Eu precisava decidir...
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Epic × 2!
O Início de um Caminho
A taverna Língua de Sapo não era chamada assim por acaso. No pavimento central, à vista de todos, uma imensa língua de sapo-gigante pendia da parede em uma armação de madeira. Era falsa, alguns diziam; Era contrabandeada, cochichavam outros. O fato era que a língua emoldurada fez da taverna a mais famosa daquele distrito de Daerlun; As mesas e os bolsos do dono estavam sempre cheios. De fato, o rico empresário era como qualquer outro Sembiano: Bastava vislumbrar seus olhos para se ver moedas sendo contadas. Sembia era uma nação em que o dinheiro se multiplicava facilmente, e a Corrente sabia disso.
Com efeito, o grupo de habilidosos mercenários não estava no Língua de Sapo por acaso. Como elos de uma corrente mesmo, seus movimentos eram calculados, e o sucesso de um bom plano dependia da performance de cada um. Desta vez, estavam todos em uma grande mesa redonda, parecendo descontraídos, mas apenas aguardando...aguardando...
A Corrente tinha espírito Sembiano: Cobravam caro por suas espadas, braços fortes, adagas, cajados e mentes. Graças a um espírito de grupo já consolidado, sabiam que podiam contar uns com os outros em qualquer situação, e nem o brilho de vastas somas de Leões poderia levar algum Elo a se romper, tornando a Corrente inútil. Isso já fora provado por vezes. Outro diferencial, além da lealdade, era o fato de serem mercenários com efeito, mas mercenários direcionados a tarefas que não lhes exigissem esforços criminosos ou imorais. Todos os elos sabiam, mesmo aqueles com um passado de crime, que o mal não compensava: Nem nos bolsos, nem atrás das grades, nem em relação à honra. Ora, isso lhes diminuía o leque de trabalho consideravelmente; Mas pelos serviços que se dispunham a fazer, eram muito bem pagos. "O segredo para conseguir uma boa oferta era estar no lugar certo, na hora certa." Costumavam dizer alguns. E era isso que faziam, em meio ao barulho de deliciosas porções sendo deglutidas e canecas cheias de cerveja batendo nas mesas.... Esperavam.... Apenas um sinal do general, e agiriam.
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