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O Velho dos Livros #1: O Banquete dos Pucke
Era uma manhã tardia já na vila de Ebbslinger - e assim como o nome sugeria, tudo se mantinha exatamente da mesma forma como ontem, anteontem, amanhã e para sempre. Pequenos Hins corriam pela pequena praça, anéis de fumaça se esvaiam pelos ares, e o cheiro de javali fresco se espalhava pelas casas. Havia um banquete sendo preparado: na casa de Tirminton Pucke, o nobre senhor opulento de Ebbslinger.

Todos os Hins da vila estavam no lar dos Pucke - afinal, era uma toca bem grande - e uma enorme mesa ovalada cercava-se de mais e mais convidados, as crianças e os velhos e os adultos normais. O lorde dos Pucke, por sua vez, encontrava-se na beira mais distante da porta da mesa do banquete, rindo de caneca na mão, sua terceira de hidromel, enquanto falava de suas caças de javali selvagem que fizera na manhã passada. O banquete, obviamente, era javali; o que ele mesmo tinha caçado e se esbaldava de contar em todos os detalhes. Ao redor de todos os convidados e Pucke, havia a sala de jantar da casa, o primeiro cômodo virando à esquerda da porta. Além da sala de janta, haviam três quartos, uma sala de troféus de javali, uma sala de estar e por fim, uma saída pelos fundos - uma saída dos fundos, em uma toca de Hin. Tirminton Pucke morava com sua esposa, Anibelle Pucke, e ambos pareciam feitos um para o outro, rindo alto, falando futilidades, e de olho para que ninguém quebrasse nada da sala de jantar.

O banquete corria perfeitamente bem em sua ordinariedade, até o inordinário acontecer. Como um feitiço, o bater nas portas da toca silenciaram toda a casa. Passando-se alguns segundos de completo vazio sonoro, murmúrios passavam de uma boca a outra, sussurando a mesma incredulidade. Não poderia ser ele, o único que não foi convidado, simplesmente não poderia ser! E continuaram falando até que foram outra vez interrompidos pelas batidas. O que eram murmúrios tornaram-se olhares, vertendo-se lentamente da porta para o rosto carnudo de Tirminton Pucke. O dele, em resposta, olhava para todos na mesa e, em um ato de desespero, riu a mais amigável risada que podia. Mas é claro que era ele! dizia, enquanto levantava-se da cadeira e encaminhava-se à porta. Antes de abrir, dirigiu-se reflexivo e franzudo - é claro que era ele.

Tirminton girou a maçaneta e o semblante em seu rosto agudava-se cada vez mais com a abertura da porta. De fato, estava certo: era um Hin de feições magras, costeletas e barba bem feitas cobrindo todo o contorno do rosto, apontando-se no queixo e respeitando a distância de um nariz proeminente. Seus cabelos, assim como o resto, eram grisalhos, e curtos mais nos lados que no topo, onde se espetavam cuidadosamente. As roupas eram simples - um colete de couro cor-de-carvão, combinando com a calça monocromática e cobrindo a camisa esbranquiçada. Não usava sapatos, os pés sujos de algo pareciam marcas de terra e cascalho absurdamente distantes da grama de Ebbslinger. Toda a roupa contrastava com as sedas de Tirminton Pucke em seu colete, acompanhadas de um kilt e meias brancas, e sapatos pretos bem polidos. De tudo presente nos dois Hins, porém, a maior antítese jazia na sinceridade do rosto fechado do velho. Um pequeno instante depois da abertura da porta, Pucke deu as boas vindas mais honestas que pôde ao desconvidado.

"Arbitair Pip!", saudou em vozes altas, "entre!". Ignorou os espantos confirmados de todos os convidados. E de fato, entrou Arbitair, olhando ao redor da residência.
"Pucke. Não sabia que havia um banquete em sua casa hoje. Acho que o cheiro do javali não chegou em mim", disse Arbitair, mantendo o rosto fechado. Pucke riu, olhando do recém-chegado ao convidados incrédulos.
"Ora, meu caro, mas o cheiro podia ser sentido de toda a vila! Acho que tem algo errado com suas narinas", afirmou Pucke.
"Oh, aquele que você caçou por um dia inteiro e tomou crédito. Teve ajuda do macho que disputava sua parceira?", perguntou Arbitair, e apenas a pergunta foi o suficiente para despertar ares de dúvida aos que serviam-se da besta na mesa de janta. Arbitair também se aproximava aos poucos ao banquete, olhando os quadros, os enfeites e os pratos guardados. Poucos notaram o instante que Tirminton arregalou os olhos ao ouvir a fala de Pip, pois se recompôs no momento seguinte.
"Mas poxa, de forma alguma! Foi uma caça limpa, e cada flecha certeira! Mas nós caçadores não podemos ter pressa, não é mesmo, por isso a demora", manejou Pucke com as palavras. Arbitair não ouvia mais o nobre, a poucos passos da mesa.
"Claro, claro"
Finalmente, o velho sentou-se em uma cadeira vazia - seu dono estava em pé observando em desgosto e desespero a chegada do Hin, mas estava catatônico demais para fazer algo a respeito. Arbitair pegou uma caneca já vazia, a encheu de hidromel e tomou três goles inteiros sem interrupção, descansando-a na mesa após um tempo. Pucke, por sua vez, pegou uma cadeira da sala de estar correndo, acomodou a mesma em um espaço apertado e sinalizou para que todos sentassem, incluindo o que estava na cadeira pertencente agora a Arbitair. Sentou-se e disfarçou o semblante cansado de sorrir tanto com um gole de hidromel.
"Então... o que faz aqui, digo, o que faz em Ebbslinger de novo?", disse Pucke entre tosses por beber muito rápido.
"Bem, eu sempre volto, não é como se alguém pudesse impedir, não é mesmo?", disse Arbitair. "Meus livros precisam ser escritos em um lugar seguro, não quero perdê-los".
"Ah, claro...", respondeu Pucke. Subitamente, notou que naquele momento havia uma chance de tomar controle da situação outra vez. Debruçou-se confiante sobre a mesa e perguntou ao rival:
"E bem...sobre o que você escreveu dessa vez, Arbitair?". Satisfez-se quando ouviu mais que uma vez um riso contido de descrença dos outros convidados ao velho. Este, porém, manteve-se quieto, girando o conteúdo restante de sua caneca.
"Dessa vez não foi muita coisa, não cheguei tão longe quanto queria. Ouvi uns cavaleiros falando sobre como algumas montanhas podem ter algum deles, mas não sei se é verdade. Vou checar pessoalmente daqui a uns dias."
O ar incrédulo retornou à sala de jantar, dessa vez direcionada ao velho. Havia uma dualidade entre julgar como mentira e loucura tal história, e crer em seus contos, e o quão insanos eles mesmos seriam se de fato fossem reais. Tomando partido da realidade, mas ainda descrente, Pucke olhou de profundo a Arbitair.
"Espere... você está dizendo que vai sozinho checar o covil de um...", perguntava Pucke, quando a resposta chegou mais cedo que o planejado.
"Sim, de um dragão".

Os rostos de toda Ebbslinger reunida transfiguraram-se em espanto. Preferiam acreditar que não fosse real a loucura de Arbitair Pip, mas o medo de tais fatos permeava suas mentes. Pip era diferente, andava para fora da vila e voltava com histórias das mais absurdas, e com nada de prova além de papéis e mais papéis de esboços de seus estranhos livros. O velho não voltava há anos, e nos próximos sete dias, declarariam sua casa como "Patrimônio de Todos" da vila de Ebbslinger, para que pudessem pegar seus pertences, e fazer o que quiserem com eles.
Para o espanto maior de todos, um grito estridente correu pelos ouvidos de todos os presentes, tomando-os de surpresa e encolhendo-se ao barulho.
"O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?!", dizia o grito. Era Anibelle Pucke, saída da cozinha com um bolo de frutas variadas fumegante.
"Tirminton, pela mãe Yondala, por que esse VELHO MALUCO está em NOSSA CASA?!", gritou Anibelle. Seus dizeres faziam parecer que os sessenta e cinco anos de Arbitair parecessem o dobro.
"Anibelle, querida, ele apareceu aqui e, bem, como você sabe, nós, os Pucke, precisamos ser hospitaleiros com todos, não é mesmo? Somos conhecidos justamente por isso!" disse Pucke, rápida e desesperadamente, acovardando-se perante à esposa.
"Sim! Nós somos conhecidos por hospitalidade! Mas ao mesmo tempo, não podemos deixar qualquer um entrar em nossa casa! Você acha que esses pisos vão se manter limpos com os pés desse heremita?! E a caneca?!" disse Anibelle, dando ênfase com os olhos à caneca de Arbitair como se fosse um filho às mãos de um troll.
"Eu, eu acho que, eu--"
"Tire ele daqui de casa AGORA MESMO!", vociferou a mulher.
Não foram necessárias mais palavras, porém, pois o próprio Arbitair Pip levantou-se da cadeira calmamente.
"Anibelle, não se preocupe com minha presença mais, queria apenas passar um tempo com meus velhos companheiros de Ebbslinger", disse. "Não há necessidade de mais alvoroço, já estou de saída"
Pegou um garfo na mesa e observou-o contra a janela talhada elegantemente. Era uma pena que um metal tão bom fosse usado para a comida de esnobes, pensou. Engarfou um pedaço do javali que restava, levantando-o à altura da boca.
"Tirminton, meu 'caro'. Não se preocupe, não entrarei mais na sua casa e causarei qualquer mal entendido. Mas enquanto não estiver pronto para ir até as montanhas, estarei vagando na floresta, vendo o que encontro de interessante", disse antes de abocanhar o resto do javali e deixar o garfo na mesa. Dirigiu-se à entrada da toca, e virou-se uma última vez, olhando para Tirminton Pucke.
"Ah, e da próxima vez, procure mirar na cabeça. Mirar na traseira do javali vai fazer ele sangrar por muito tempo, é sujo e desnecessário para o animal. Sinceramente, se não fosse pelo outro bicho, você realmente teria ou deixado a coisa fugir, ou teria encontrado sua carcaça devorada por qualquer outra coisa que pudesse vir de mais longe. E acho que esse você não teria muita ajuda para contar com", finalizou Arbitair, fechando a porta atrás de si.

O banquete durou por mais pouco tempo, em completo silêncio exceto o tilintar de poucas canecas e as facas colhidas para cortar o bolo de frutas. Tirminton Pucke não comeu do bolo, ao invés disso ficou observando a mesa de jantar por um incontável tempo, antes de despedir todos os convidados enquanto falhava miseravelmente em conter o seu desprazer do encontro com o desconvidado. E assim cresceu em um passo gigantesco o desgosto dos Pucke por Arbitair Pip, ao mesmo tempo que a reputação da nobre família dos Pucke caiu mais do que caíra em anos e anos e anos de contos mentirosos, pequenos favores, e os bons costumes dos Hins realizados à exaustão. Um dia ele conseguiria tombar aquela casa cheia de livros de Arbitair Pip, mas não antes de trazer fazê-lo pagar pelo que fez. Mas antes mesmo disso, era bom comer o bolo de frutas de Anibelle Pucke: sabia o que aconteceria se não provasse de qualquer comida que a esposa fizesse - e não disesse que estava ótimo.
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